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O que pensa um homem bomba?

 

 

            O que pensa um homem bomba ao puxar a cordinha?

 

            É um dos mistérios que dormitam na minha mente. Vejo o cara lá, em meio a uma multidão – homens, mulheres e crianças; inocentes acerca do seu destino. O bomba se aproxima.

 

            – Por “Allah”, ou por qualquer outra coisa – e se espalham membros, peles, ossos e esperanças por dezenas de metros quadrados.

 

            Imagine uma criança, desde o berço, ouvindo:

            – Você vai estourar uma multidão e vai para o céu. Vai para o céu. Estourar. Multidão. Pela Glória de Allah. – Essa criança, sem acesso a cultura, leitura, internet, vídeo game e humanidade vira uma arma letal na mão de uma das pragas da humanidade: o fanatismo.

 

            Pergunto pelo homem bomba, por que me atingiu certa melancolia. Faleceu o piloto que lançou a bomba do Enola Gay – o avião tinha o nome da mãe. Vai agora ajustar-se a ela na eternidade:

            – Mamãe, mamãe, eu juro que não sabia.

            – Menino mau. Vem para o colo, vem. – E lá vai o nosso homem bomba para o colo que lhe dê paz na consciência. Sei que ele não deve ter dormido bem nos últimos sessenta e dois anos. Que Deus tenha piedade de nossas almas.

 

            A bomba atômica foi a hecatombe que nasceu do encontro de duas tragédias: o fanatismo japonês e o orgulho americano.

 

            Racionalmente os americanos calcularam quanto lhes custaria matar os japoneses um a um. Pela experiência adquirida nas batalhas do Pacífico (ironia) um japonês era “Duro de Matar”. Custava alguns milhares de dólares. Resolveram criar a morte em larga escala. E duas rosas surgiram em mar de sangue.

 

            O mundo nunca mais foi o mesmo. Nasceu, como sombra de todos os males, a guerra fria e diversas gerações tiveram pesadelos com os fantasmas daqueles tempos. Muros foram levantados e depois caíram. Novos muros surgiram. Passados os anos, os sonhos se tornaram mais leves – teriam os fantasmas nos esquecido?

 

            Nunca – o mal não dorme. Em uma manhã de setembro a insanidade deitou sobre nós e duas torres tombaram (as tragédias vêm aos pares – não foram dois os aviões que caíram e escancaram o descaso federal com a aviação civil?). Que respondam os místicos, os esotéricos e adoradores de cultos estranhos.

 

            Tenho devorado livros, revistas e jornais. Busquei na religião, na sociologia e na psicologia a resposta e ainda não encontrei uma completa: o que leva o homem bomba a puxar a corda? Será o desejo de ter 70 virgens. Sabe lá ele o que é uma virgem? Uma religião que promete um bacanal perpétuo aos seus santos, tem algum fundamento? Espero que a sanidade volte ao mundo.

 

            Quero que um decreto baixe sobre a humanidade e proíba o fanatismo, o orgulho e a vaidade. Vejo um pássaro bebendo água em uma fonte. Desejo aquela paz e tranqüilidade e depois poder voar bem alto, perto do sol, para que nenhuma sombra me alcance...

 

Jurandir Araguaia
Enviado por Jurandir Araguaia em 07/11/2007
Código do texto: T726892
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jurandir Araguaia
Goiânia - Goiás - Brasil
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Jurandir Araguaia