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Meu avô e wafer de limão

Abrindo um pacote de biscoito wafer ele me veio à lembrança, e enquanto eu colocava no pote biscoito por biscoito, a figura de meu avô me veio à mente tão doce quanto o chocolate do recheio. Mas era wafer de limão que ele trazia quando vinha nos visitar no pequeno apartamento do Beco do Mota onde morávamos. Era biscoito a varejo e lembro que vinha num saco de papel pardo que hoje não se encontra nem na quitanda da esquina, se é que ainda existe uma quitanda de esquina. O sabor do biscoito da minha infância eu nunca mais provei, hoje em dia não tem o mesmo gosto, talvez seja porque não é mais aquele que eu pegava no saco de papel que meu avô trazia.
Uma vez eu estava doente, deve ter sido alguma amidalite, coisa assim, mas eu tinha febre e dormi. Quando acordei vi meu avô sentado na cadeira em frente à cama; ele me olhava dizendo que tinha levado biscoito prá mim. Fiquei tão feliz por ele estar ali, eu sabia que não era a neta predileta, mas aquele gesto e a vigília enquanto eu dormia com febre me fez entender que mesmo não sendo a neta preferida o amor não é menor por isso.
Ele vestia uma camisa branca, estava sem o costumeiro chapéu que usava por ser calvo; eu o achava lindo, olhos de um azul tão bonito quanto o da pedra azul no anel de minha avó. Homem simples sem grandes ambições, descendente de uma família de colonos alemães, passou por muitas dificuldades na vida, enfrentou o preconceito da década de trinta por viver com minha avó antes do casamento, foi preso durante a revolução de 1924, ergueu sozinho, tijolo por tijolo, a casa onde passei parte da minha infância; adorava pão, carne assada, tangerina e caipirinha; gostava de ficar em casa com calça de pijama, toalha em volta do pescoço lendo o jornal, fazia um café gostoso e eu ficava ao seu lado enquanto ele mexia com uma colher o pó na água fervente e só depois coava no saco de pano, era um café cheiroso, um dos cheiros da minha lembrança... e tantas outras histórias existem prá lembrar... algumas bem tristes, com sessenta e quatros anos lutou, em enorme desvantagem, contra um câncer no cérebro. Mas a imagem que ficou foi a figura silenciosa de um homem de paz; não tenho uma só recordação de uma voz mais alterada, um gesto agressivo, impaciente... e mente de criança não perdoa, fixa tudo que magoa... mas dele fixou o sentimento de generosidade, meu avô foi um homem bom.
Me lembro quando eu e minha irmã ficávamos com minha avó na varanda da casa de Coelho Neto esperando ele chegar do trabalho no fim da tarde, e quando ele aparecia, lá no começo da rua, a gente logo reconhecia o caminhar vagaroso, a camisa aberta, o chapéu companheiro, a bisnaga que ele sempre trazia e que sempre chegava faltando um pedaço... e nós saíamos avisando a todos: “vovô chegou... vovô chegou... vovô chegou...”.
Há trinta e quatro anos não vejo mais meu avô chegar, a não ser assim, de repente, sem avisar... enquanto coloco no pote os biscoitos que comprei.
Cristina Nunes
Enviado por Cristina Nunes em 21/11/2005
Reeditado em 25/11/2005
Código do texto: T74398

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Sobre a autora
Cristina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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9 áudios (1002 audições)
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