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Dormindo com um Apóstolo

Chego atrasada na Rodoviária, compro o bilhete às pressas e mal
me despeço de meus amigos.
Procuro a poltrona. Só havia mesmo um lugar, lá no fundo.
Na janela, um rapaz derrotado de sono. Mas me ouve chegar e
retira sua mochila do meu assento.
Também estou exausta. O feriado foi longo a quase não dormi.
Começa a viagem. Seis horas de estrada, meu Deus !

Xingo mentalmente todos os projetistas de ônibus do mundo. Pensam que os passageiros não tem pernas e que o ângulo de inclinação das poltronas proporciona um conforto quase divino ! Aquilo deve fazer a felicidade dos ortopedistas, na verdade. E vem logo a teoria da conspiração : será que isso tudo é proposital ? Claro ! E os donos das Empresas rodoviárias fazem parte da Máfia. Todos ganham muito dinheiro com nossas colunas destruídas e bumbuns amassados...

Mas fazer o quê ? Não tenho provas e estou morrendo de sono. Ajeito uma bolsa no bagageiro e tento conseguir uma posição ao menos digna para dormir.
Observo o passageiro ao meu lado. Está dormindo. E é muito bonito. Cabelos negros, desgrenhados, barba, pele perfeita, blusa de malha azul, tênis. Seu perfil me lembra um apóstolo de Cristo pós-moderno, vestindo jeans. Parece mesmo uma figura saída de um livro. Fecho os olhos e tento dormir. Me reviro muito em busca de uma posição, pois não sei onde colocar as pernas. O rapaz me olha sonolento também, mas não diz palavra. Também está desconfortável.
 
Depois de algum tempo consigo dormir um sono tranquilo, até diria que delicioso. Chego a sonhar com os três dias do feriado, da maciez da cama e dos quatro travesseiros. Do ar silencioso da madrugada. Do ti-tic do ventilador de teto. Dos passeios noturnos pela cidade. Da paz que senti enroscada ao perfumado edredom. Da segurança de suspeitar  um Anjo ao meu lado. Sim, foi um sono estranhamente agradável.
Até que o ônibus fez uma curva fechada e acordei de supetão.

O susto foi imenso, daqueles que paralizam. Mal acreditei na cena que protagonizava. Estávamos abraçados, assim meio de lado, eu e o cidadão estranho. Ambos sem graça, sem entender nada, sem ação. Nossas pernas estavam entrelaçadas. Minha cabeça apoiada no seu ombro. Ele apoiando o rosto no meu. E seu perfume estava no meu sonho. ELE era o edredom. Como não conseguíamos dizer nada, fomos suavemente nos desvencilhando um do outro, vermelhos de vergonha. Quando conseguimos nos recompor, ele balbuciou:

- Olha, eu não sei o que aconteceu. Juro por Deus. Eu estava dormindo pesado. Sou sério, tenho bons princípios... posso garantir que não foi intencional. Jamais me aproveitaria de você... como é eu nome ?
- Claudia. E o seu ?
- Mateus. Muito prazer. E perdão pelo constrangimento... ainda nem sei o que dizer para que você...
- Tudo bem, Mateus. Eu percebi que você estava morto de sono e desconfortável. Eu também estava. Está claro que não foi proposital. Também estou envergonhada. Nunca me aconteceu nada igual.
- Nem comigo, Claudia. Posso garantir. Sou respeitador. Nem com minha ex-mulher dormi assim num ônibus. Prá ser bem sincero, nem na cama. Ela não era carinhosa, não gostava de dormir abraçada com ninguém.
- Hummm... entendo... você devia estar sonhando com ela.
- O estranho é que não. Sonhei que estava em um lugar lindo, uma plantação de flores grandes, amarelas. O céu tinha um azul incrível. De repente encontrei uma mulher. Muito bonita, sorridente, vestido branco. Parecia amar aquele lugar. Trazia uma cesta com algumas flores recém-colhidas. Perguntou se eu estava perdido, se queria descansar. Disse que sim. Então convidou-me para visitar seu sonho. Perguntei seu nome, mas ela não disse mais nada.
Me levou pela mão, caminhando delicada. Fiquei encantado com sua doçura. Chegamos a uma casa branca, simples mas muito bonita. Ela parecia estar cansada também. E muito só.
Olhei novamente seu rosto, agora povoado de uma tristeza infinita. Perguntei se podia fazer algo por ela. Que novamente não respondeu. Me abraçou em silêncio. Depois deitamos em uma larga cama. E ainda abraçados, simplesmente dormimos. Acordei com o solavanco do ônibus. Estranho, não?
- Por que ?
- É que nunca lembro dos meus sonhos. Desse lembro detalhes. Só falta o nome das flores e do lugar.
- Você sonhou com campos de girassóis. Na Toscana. A mulher
  tinha sangue italiano, mas não morava lá.
- Ei, como você sabe ? Está brincando ?
- Não. É que entendo de sonhos.
- Então porque me acolheu ? Um estranho ?
- Estava muito triste. Somente sorriu para as flores. Havia
  perdido um amor. Por isso aceitou sua companhia. Confiou
  em você. A casa não existe, é um elemento que faz parte
  do seu imaginário. Da delicadeza que ela busca e nunca
  encontra. Dormiu com você como uma criança. Queria se
  proteger da realidade que a faz sofrer.
- Mas por que ela fez isso ?
- Para se despedir de seu sonho mais bonito. Em seu
  silêncio, pedia forças para sobreviver.
- Muito bem, Doutora em Sonhos... e o girassóis, o que
  significam ?
- Ela mesma. Um ser solar. Plena de alegria. Mas de
  tristezas profundas diante da escuridão. Você é
  professor, não é ?
- Sou. De Filosofia e Mitologia.
- Então é isso. O campo de girassóis e os cenários da
  Toscana são o Olimpo interior dessa mulher. Onde ela
  guarda seu manancial de força e pureza. Imagine
  Psiquê, se perdida a batalha por Eros. Para onde iria ?
- Claudia, você fala como quem conhece profundamente a alma
  humana.
- Que nada. Só entendo de cabos submarinos e satélites.
- Ou então conhece bem essa mulher... Como a chamaria ?
- Pode chamá-la de Solitaire.
- O que você disse ?
- Tome aqui uma revista. Leia. Vou ler também.
- Prá que ?
- Prá não dormirmos mais.
- Quer ficar calada ?
- Sim.
- Ok. Mas aceite o meu cartão.
- Obrigada.
- Se quiser, me ligue.
- Talvez demore muito.
- Ok. Eu sei esperar.


E pensei cá comigo : " Sabia que tinha nome de Apóstolo!"

Foi assim até o fim da viagem. Três horas de absoluto silêncio. E até hoje não entendi essa estranha conexão...

Claudia Gadini
28.06.01
Claudia Gadini
Enviado por Claudia Gadini em 28/01/2006
Reeditado em 24/02/2007
Código do texto: T105291

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Sobre a autora
Claudia Gadini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Claudia Gadini