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PAZ

Paz para a paz que acabou de jantar um punhado de mísseis...
Paz para o rapaz que não é capaz de recusar a farda e se alistar...
Paz para o homem árabe que teve sua casa explodida e já não sabe que a comida que fabrica é que traz tanto odio e tanta intriga...
Paz para o esquisito general que ordena que os meninos devem ir para o quintal recolher os destroços que outros tantos mortos deixaram pra trás...
Paz para o lançador de obus que cria do nada um campo coberto de madeira com capuz...
Paz para aquele que tortura e jura que é para o bem da humanidade e diz que só está cumprindo ordens de quem pensa que realiza a tarefa para o bem do seu país com orgulhosa insanidade...
Paz para o dedo que se atira contra o gatilho e oferece o brilho que não leva nem ao inferno e nem ao céu e sim retira das veias o mais precioso mel...
Para para a enfermeira que retira do peito ferido um caroço de aço e que reza antes e depois do jantar para o algoz que conta suas mortes com riscos no braço...
Paz para a criança que ao longe lança um olhar perdido e que se perde entre prédios destruidos e mesmo assim sonha com a escola e seus antigos e mortos amigos...
Paz para o homem que atravessa o campo minado para levar lá longe ao soldado um pouco de água e um pouco de alento antes que o vento faça voar com calma a sua breve e longínqua alma...
Para para o entardecer que recita cores aos corpos vivos e mortos estendidos sobre o areal enquanto a sinfonia mecânica
grunhe sua ária interminável e que ecoa por entre montanhas e vales cobertos de sangue derramado em nome do mal...
Paz para a mulher que chora sobre o corpo do marido que plantava cevada e que teve a visão de que um anjo celeste desceria do céu como que por uma escada os levando pra longe daquela tormenta que prenuncia a peste...
Paz para os gemidos vindos de todos os cantos como se o útero da terra rugisse a fera que virá para desconsolar todo aquele que em sua carne sua espada enterra...
Paz para o medo que guarda o pior segredo que é saber quando e onde explodirá um novo conflito e que aos gritos chama pela coragem que fugiu como Jesus ao Egito...
Paz para os olhos do soldado que repousam sobre a foto de sua familia que está tão longe como uma ilha em um tempo distante que lhe corta o coração como ferida constante...
Paz para o homem que se veste como uma bomba e caminha como sombra da morte esperando um paraiso prometido como se a loucura prometesse sensatez ao juizo...
Paz para aquele que acredita na paz e pelo mundo sai em seu nome e em seu nome recita os versos do amor e da compreensão
e com ela caminha mesmo que riam de si e de sua crença e digam que é só ilusão...
Para para a paz que já não sabe para que existe já que o homem insiste em chamá-la de incapaz para gerar a paz que espera e quer mesmo que a conjugue como verbo atrelada ao presente corpo do aço e a substancia futura do ferro que lhe move o braço...
Paz é o que pede o mundo antes de chegar ao fundo.
 
Preto Moreno
30/01/2006
 
Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 30/01/2006
Reeditado em 01/02/2006
Código do texto: T106224

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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