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VÔO ANUNCIADO

Meia-noite.
Fui tomar banho, a vi.
No alto da parede, à esquerda,
suas asas em verde-cinza,
quieta, à espreita, a borboleta,
não podia deixá-la fugir.
Vasculhei a casa toda, cada canto,
todos os buracos, cada fresta,
ela não podia  escapar.
De quando em quando eu ia espiá-la,
verde-cinza, asas abertas,
não dava o menor sinal de que iria partir.
Não podia deixá-la fugir,
se infiltrar no menor vão,
num descuido, num piscar de olhos...
Dia e noite fiquei ali, pela casa,
cuidando de mim e dela,
não sabia como se alimentava,
como podia ainda estar viva,
quieta, parada, imóvel, petrificada...
As vezes assoprava em sua direção
e via suas asas se mexerem,
não em busca de vôo,
apenas aceitando o vento e se movendo...
Muitos anos se passaram, ao todo cinquenta e dois,
e naquela manhã fui ao banheiro e fiquei mudo;
ela não estava lá...
Em pânico, procurei por toda a casa,
casa de azulejos verde-cinza,
num relance a vi no alto da parede da cozinha,
havia uma fresta por onde ela se enfiava,
as asas bem juntas, quase se esmagando,
podia se ver um fiapo de luz rente ao seu corpo...
Horas depois, sem que eu pudesse fazer nada,
apenas olhar, vi o resto de suas asas,
os pigmentos no ar, verde-cinza,
a luz ganhando o espaço que ora ela ocupara,
o espaço aumentado, a luz se fortalecendo,
até que ela desapareceu e toda a luz tomou conta...
Percebi, ofegante, que aquela borboleta era a minha alma,
alma que me escapara por uma fresta,
alma verde-cinza, toda a luz que havia no mundo me inundava.
. . .
Na manhã do dia seguinte encontraram meu corpo.
E borboletas voavam ao redor.

Preto Moreno
22/02/2006



Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 22/02/2006
Código do texto: T115067

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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