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ENQUANTO CORRO MINHA MÃE TEM FILHO...

Carta de um desertor ao tenente comandante da sua Cia.:

Tenente: venho comunicar-te que desertei do Exército. Quero despir a farda. Viver como gente, tenente. Não quero ser destruído pela guerra, onde se morre e enterra.
E os que sobrevivem a vida encerra. Não quero trazer na alma marcas de sofrimento que me impeçam de viver sonhos que acalento.

Os arquitetos da guerra não vêem sangue; não vêem mutilados; não vêem mortes. Não vêem nossos amigos morrendo em nossos braços sem braços que os impedem de um derradeiro abraço. Eles não têm laços e nos fazem de palhaços. Não quero que a próxima granada caia no meu colo e me destrua neste solo. Quero viver no Olimpo protegido por Apolo. O que tenho a tiracolo é uma arma que mata sem bravata, assim diz quem usa gravata sem se importar se vou ficar psicopata e me transformar em sucata.

Não quero que a guerra me transforme numa ogiva, vivendo sempre na defensiva, fechado em mim como alternativa, vendo todas as pessoas com roupas verde-oliva.

Talvez esta guerra já me tenha feito um pouco louco; das melodias faço ouvidos moucos e, se tento acompanhá-las, fico rouco. Não é a vida que eu sempre quis; entre fuzis e covis, em meio a pessoas hostis e imbecis, que nunca vêem a vida sob óticas primaveris...

Chega, Tenente. Por favor, demover da minha decisão não tente. Tudo que disseres estou ciente, mas este não é meu ambiente. Quero ter uma mulher como confidente; ter com ela momentos de amor ardente. Não procuro medalha de valente, mas sair daqui antes que fique descrente. Ver gente saudável e não doente; enfim, não quero ser um demente.

Sei que não concordas comigo, mas eu te digo como amigo: andamos sobre jazigos. Em cada passo um perigo; quando menos esperamos eis que surge o inimigo transvestido de mendigo e não há, aqui, nenhum abrigo...

Esta guerra nunca encerra. Teremos que ser, sempre, vigilantes atuantes, matando ou sendo mortos por assaltantes; quaisquer movimentos hesitantes podem nos deixar agonizantes. Vou adiante, se ainda for possível, porque sou da vida amante e não quero morrer a qualquer instante...

Aqui está minha metralhadora matadora e, por favor, seja seu portador ao quartel, como meu superior. Também a munição e não espero admoestação, mas viver minha ilusão. Uma mulher que me queira; ver o nascer das flores na primavera; respirar outra atmosfera; alimentar minha quimera; esperar quem me espera; ver minha casa coberta de hera;voltar a minha infância e ver se ainda existe a tapera e encontrar - quem sabe - minha galera?...

Que a guerra não tenha te afetado, impedindo-te de saber que ainda existe o amor ; cuidado com as emboscadas; aqui quando não matam só com tiros, mas também com facadas. Toma cuidado para não ficares desgarrado e não percas o rumo da estrada que aqui não existe, mas que tem que ser enxergada para não caíres em ciladas. Tudo é minado em todo lado. Se eu morresse não faria falta. Sou apenas um soldado. Mas tu és Tenente e os donos da guerra precisam de gente que acredite que eles sejam inteligentes; eloqüentes e decentes...
Se for capaz de encontrar a paz sentir-me-ei sagaz.
Desejo-te sorte e que suportes esta maldita guerra...





nvelasco
Enviado por nvelasco em 03/03/2006
Código do texto: T118372
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Sobre o autor
nvelasco
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
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