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DIA DA MULHER... SERÁ?...

Hoje, como Dia da Mulher
me faz pensar no que sou.

Uma escrava efetiva do tempo
dos filhos, do marido (se tenho),
enfim de tudo ao meu redor.

Uma Amélia desgostosa
fatigada pelo trabalho
cheirando sempre a tempero.

Arrumar, lavar, passar, limpar,
cozinhar, cuidar... dos bichos, dos filhos,
fazer compras, consertos,
organizando despensa e a casa.

Administrar as contas, o dinheiro,
fazendo um milagre estupendo,
enfim...
todo o dia, a mesma coisa...

Marido... quando existe,
vive pedindo por tudo...
Me faz isso, faz aquilo
passa isso, me dá'quilo
dando ordens adoidado
sem nem sempre dizer obrigado
como se fosse um patrão.

E nós, somente mucamas
daquelas de cama e mesa
esquecidas em nosso canto
abaixamos a cabeça
com a maior aceitação.

Os filhos, desde pequenos exigem
o máximo da nossa atenção:
mamadeiras, fraldas, papinhas
cuidados de todos os tipos
que duram uma eternidade
bem mais que 24 horas.

Depois que crescem, mais solicitam
e a gente nunca tem tempo
de esticar as pernas na rede
ou jogar conversa fora.

Adolescentes, viram rebeldes
querendo até dominar.
Só pensam em ter liberdade
passear, distrair, paquerar
como se nada mais existisse no mundo
pois vivem sempre cansados
de nunca fazerem nada.

E nós pobres coitadas
sempre dormimos tarde
esperando as doçuras
que sairam p'ra noitada.

E numa inversão de valores
não dão mais satisfações...
Vivem cobrando atitudes,
mandam na gente com força
como se fosse a mãe
e não os filhos da mãe.

Não,
eu não me considero mulher!
Aquela que é uma estrela
sempre bela, esplendorosa,
perfumada, bem cuidada,
vestida completa de gala
pronta p'ra festejar.

Com direito a galanteios
presentes, passeios, viagens
simplesmente acordar tarde
café da manhã na cama
paparicos, gentilezas,
de muitos, inerentes cuidados.

Sem ninguém p'ra repetir
como uma vitrola quebrada
que está gorda, acabada,
cabelos desalinhados...
E sim, direito a salão de beleza
banhos de imersão, de espuma
ou até mesmo um spa.

Mulher é p'ra ser endeusada
bem tratada, admirada,
estar coberta de rosas
sem ser a mulher perfeita
por todos sempre esperada.

Ser mimada, acarinhada,
protegida, venerada,
tratada com muito respeito,
por todos, ser muito amada...

E não só, servir de cunhã
acatando ordens de algozes
mas preservada como espécie
valiosa, muito rara.

Afinal de contas,
toda mulher é uma fada
pois vive fazendo magias
p'ra contrabalançar o seu dia
e encaixar tudo na ordem,
sempre com muito cuidado.

Imagina!... quem me dera
pudesse neste momento
sair com a roupa do corpo
sem lenço e sem documento
colocar meu pé na estrada
numa viagem de ida
sem nem preocupar com a volta.

Fugir do cárcere privado,
das tarefas domésticas,
dos mandos e desmandos,
de tudo que me deixa esgotada
não me dando qualquer chance
de até mesmo sonhar.

No dia em que isto eu fizer
ai sim serei a Mulher
livre, liberta de tudo
completa, solta no ar...
Como o vento no deserto,
uma janela aberta,
pronta para viver só de sonhos
sem nem precisar ver as horas.

Neli Neto
08.03.2006
06:05hs-RJ

Neli Neto
Enviado por Neli Neto em 08/03/2006
Código do texto: T120526

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Sobre a autora
Neli Neto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
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Neli Neto