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Canto I

Ao som da lira eu busco distrair-me...
porém, por mais que alegremente eu cante,
sempre deploro... e entre íntimos delírios
d'alma aos olhos me assalta o teu semblante!

Vagando triste à noite lentamente,
sob os raios da merencória lua,
teu venturoso quarto iluminado
ao alto avisto da deserta rua;

e, como um ser que cerca-se de riso
e na força do Amor firme se arrima,
elevo-me ditoso ao teu abrigo
nas leves asas que o meu peito anima.

Que estorvo me haverá... se mesmo os muros
transponho, ó Musa, em copiosos giros?
És a glória do amor que eu busco insone,
que anseio louco em sôfregos suspiros!

Virgem dos sonhos meus... Dama excelente,
doce expressão do meu amor singelo
em cuja graça oculta um coração
cheio todo de afeto e de desvelo,

perdão, se de algum modo, eu te molesto
neste gesto febril e rubicundo,
meus tristes olhos já não mais suportam
fitar o brilho insípido do mundo:

mal sabem que um mover incauto às trevas
pode lançar uma alma apaixonada,
buscam sem trégua os teus, porquanto vêem
a luz dos Céus em ti cristalizada...

e agora... em te deixar reluto tendo
em vista o que jamais est'alma viu...
como te poderia rejeitar
se nem Cristo, que é Deus, te resistiu?!

Vê! Como as tuas alvas mãos se enlaçam,
também unem-se os nossos corações:
ao longe, da sacada, em reverência
eu acompanho as tuas orações...

mas, vendo-te prostrada junto ao leito,
assim... envolta em teu traje noturno,
temo a fúria de Deus... e me revisto
de um ar penoso, esquálido e soturno!

Então, percebo que inda em mim resiste
a natureza adâmica, intratável;
que não passo de um bardo insulso e reles,
de um pobre pecador... um miserável.

Oh! Quanta graça alcança uma alma quando
a Deus concede um canto ameno e grave...
deste teu casto peito um hino arranca,
faze-Lhe ouvir a tua voz suave!

E, quando o teu amável coração
for em Sua recâmara acolhido,
vê se lembras de mim... que só de amores
ando, ó Bela, por ti cego e perdido!

Sim, põe em Deus os teus cerúleos olhos
e as tuas brandas súplicas Lhe envia...
porque, enquanto te espreito assim calado,
eu sei também que o Céu se silencia.
der einsam dichter
Enviado por der einsam dichter em 17/03/2006
Código do texto: T124525
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Sobre o autor
der einsam dichter
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
1 textos (30 leituras)
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der einsam dichter