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JESUS CRISTO ERA PIANISTA

Jesus Cristo era pianista.
Tinha dedos longos, afiados,
tocava melodias como só um Deus poderia fazer.
Morava numa casa bem simples,
tinha uma moringa,
com a qual buscava água num rio próximo;
caminhava lentamente de volta à sua casa,
sentava-se ao piano e descrevia um mundo
que ainda poderia existir.
Seus vizinhos diziam que havia
tal sentimento naquela música,
tal força, que causava um misto de prazer e horror;
prazer por arrancá-los de seus corpos,
horror por voltarem à estranha vida material.
Havia momentos em que Jesus se enfurecia
e o céu parecia que ia desabar;
os cães uivavam interminavelmente,
nuvens cor de sangue se moviam rapidamente
em todas as direções, até elas pareciam
escutar aquela música.
Num dia qualquer de dezembro, ao acordarem,
não havia música no ar;
o silêncio parecia se esquivar dos ruídos,
o tempo se orgulhava por ir mais devagar,
uma questão relativa, diziam...
Notícias vindas de várias regiões
davam conta de que o pianista saíra em turnê,
se mostrando em feiras, templos, convenções,
sempre a escrever uma nova música,
algo nunca escutado por ninguém antes...
Havia os invejosos, é claro;
queriam confrontá-lo com antigos pianistas,
virtuosos, e um deles era chamado Barrabás,
que tocava algo entre o rock jurássico
e um trash podre, espalhafatoso, enganador,
em que fazia escalas enganosas, velocíssimas,
quebrava pianos e urrava.
Cristo não pôde evitar o confronto, foi levado à força e,
ainda pouco conhecido naquelas regiões,
foi preterido pelo público pouco conhecedor de música.
Jesus sabia do seu valor, das músicas que escrevera,
não negava suas origens e, sempre que perguntado,
reverenciava seu Mestre.
Isso causou ciúmes e inveja, a tal ponto,
que o processaram por querer se igualar
ao maior músico de todos os tempos, Deus.
Não se domina a fúria quando ela
é o maestro dos músculos;
não se diz a ela como conduzir
a orquestra de dentes e garras;
para a agressão surgir bastou um fósforo
riscado pelo diretor de palco,
homem cônscio de seus atos, segundo ele,
que tinha mania de lavar as mãos
e sumir das apresentações.
Entregue à fúria dos skins ultra-medievais,
o escarneceram, o cuspiram,
o chamaram de tocador de pentatônicas,
plagiador, prestidigitador, e resolveram, entre eles,
dar-lhe um castigo severo.
Até a sua casa foram enviados homens
com a ordem de trazerem o piano, intacto,
com o qual executariam o último concerto;
enquanto isso, músicos medíocres, ávidos por vingança,
o espancavam, obrigavam-no a explicar
como construia sua complexas harmonias,
faziam-no assoviar seus intrincados ritmos,
é claro, sem entenderem nada;
com a chegada do piano os planos se aceleraram,
tudo foi planejado nos mínimos detalhes.
Desmontado o piano, com a parte metálica
fizeram uma lança pontiaguda, fizeram também um cálice
para um último drink, segundo eles;
um deles sugeriu que, com a madeira do piano,
fizessem uma cruz e nela o pregassem,
bem ao modo do Homem Venusiano de Leonardo Da Vinci,
se lembram?
E assim foi feito.
A horrível sinfonia foi escrita com sangue;
naquela tarde, Ele, o Maior de Todos, foi pregado na cruz.
Com as mãos bem à mostra, perfuradas, o cruxificaram
para que todos vissem o que se faz
com um pianista metido a besta,
inventor de milagres sinfônicos,
curas sonoras, patéticos ballet's sobre as águas,
sopros divinos que ressuscitam mortos e coisas afins.
Pois bem.
No mesmo instante em que o Grande Músico entregava
seu último réquiem, escrito em tons vermelhos e róseos,
O seu Mestre, O Maior de Todos, enfurecido,
mas ao mesmo tempo feliz por recebê-lo de volta,
regeu suas inumanas tempestades, seu coro de ciclones,
solos raivosos em fúria cromática,
mesmo sabendo que só saberiam de sua última sinfonia,
inacabada, chamada de "O Fim dos Tempos", muito tempo depois.
Não houve pausa, coda, vigília silenciosa.
O menino pianista recebeu mais uma chance nesse mundo e,
dizem, num ato de criação divina, teceu uma ária
tão leve e tênue que, nela, foi transportado
à morada do Maior Maestro onde, até hoje,
cria óperas para serem tocadas quando retornar
para a execução de seu último adágio.
. . .
Onde li isso?
. . .
Por acaso, ao conhecer um velho maestro;
disse-me possuir um baú onde guardava suas memórias
e o deixaria para mim e que só o abrisse
quando ele se fosse desse mundo.
Hoje o abri.
Essa foi a primeira história que encontrei:
"Jesus Cristo era pianista".
Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 22/03/2006
Reeditado em 23/03/2006
Código do texto: T126926

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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