Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

BILHETE

Na mesa à esquerda onde sempre me sento para escrever,
encontrei, amarrotado, um pequeno guardanapo
com o meu nome escrito em cima.

Com o cuidado de um esteta a consertar a porta que não fecha
desfiz o embrulho e vi escrito, bem lá no fundo,
uma palavra toda em vermelho, como se alguém
ainda no Éden apanhasse a esfera chamada mundo
e pirografasse o louco mistério que há nas coisas
que se escondem entre as dobras da superfície
nos origamis dos tartamudos e no véu das lousas
suspensas como nuvens sobre as planícies...

Anunciando-se em minúsculas porções de pulso
os batimentos da coisa-viva tornaram-se claros
e mais que isso em mim já não havia do tambor o rufo
como se eu numa olaria fosse a fileira de vazios jarros
tomei-me em pânico e vi que morto eu não estava
mas com mais leveza abri de vez o guardanapo
e pude ver todo inteiriço o que era meu e que saltava
bem frente aos olhos que eram lagoas de um verde sapo
meu coração todo puído e envergonhado e tiritante
todo envolvido em brim da Pérsia mesmo que esfarrapado
e vejam só falava a língua ainda que não de anjos
e pus-me todo ao seu dispor para saber o porque do fato
e disse-me ele que por descaso e avareza esquecimento
separei-me da chuva e do calor e de todo o sentimento
e que ali estava para me oferecer a trégua infinita
que há entre quem parte a voz e fica com a que grita...

Água nos poros salgada em jorros tal mar em ondas
limpei os quartos que ainda restam de vãs memórias
com a vassoura de sol ardente varri as sombras
interno assunto parei desmudo finei histórias...

Tenho num quadro exposto em vidro o guardanapo
que porventura um dia leu em meu coração
que mais vale amar da aranha negra só um fiapo
do querer tecer a inteira teia da ilusão.

Preto Moreno
24/03/2006















 
Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 24/03/2006
Código do texto: T127878

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Orivaldo Grandizoli). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
6768 textos (102472 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 08:43)