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LETARGIA

Nem sempre chove de manhã nesta cidade...
As vezes cai uns pingos tão pequenos que mal dá para enxergá-los a olho nu...
Formigas, em bandos, param por causa de uma poça e, quase sempre, desviam muitos metros para retomarem o caminho de casa...
Os vendedores de ervas medicinais,
os transeuntes sem guarda-chuvas procuram abrigo
sob marquises,
enfiam seus narizes dentro de bares,
borboletas de pequeno porte esvoaçam, preguiçosas,
sob a chuva fina...
Os carros andam menos velozes, há uma sensação de quietude,
um estado de percepção menos acesa,
meninas saem da biblioteca e dão risadas gostosas,
a chuva se joga mansamente, espatifa suas gotas no cimento...
O sol, em cumplicidade, espicha seus braços e toca mansamente
todos que estão pelas ruas,
dia de outono com muito açúcar,
os caçadores de qualquer coisa estão soltos pelas calçadas,
ambulantes, corretores, aposentados,
a chuva ainda não escolhe a quem molhar...
Nem sempre a cidade está assim...
Ontem, por exemplo, choveu muito mais forte
e a enxurrada prometeu levar algumas coisas,
enganchou suas mãos em pés de árvores,
travou lutas intensas com formigas e borboletas,
e eu, quieto na cozinha de casa,
compunha uma canção que falava de políticos e trapaças...
Nem que me dessem um avião de um só assento,
um barco de uma só âncora,
uma chave de uma só porta,
eu teria postos os pés pra fora de casa,
o dia estava tão dormente que o trem que passa aqui perto
rodava sobre os trilhos de uma maneira compassada,
algo em seis por oito, pássaros cuspiam sonoros guinchos,
e eu, que nem sempre acordo com sono,
senti uma vontade enorme de me recostar,
folhear uma revista qualquer,
tomar um café,
cochilar,
dormir...


Preto Moreno








Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 28/03/2006
Reeditado em 05/05/2006
Código do texto: T129905

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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