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TRAVESSIA

Digam o que disserem, o sol é igual
para o imenso navio que flutua no mar
como para o pequeno pássaro que canta miúdo
para a pequena platéia
de galhos e ciscos lá no quintal...

Digam o que disserem, a terra ressuscitou
a semente e ali onde há a ausência
de raiz e galhos, haverá uma planta
a esticar seus braços e a gesticular
para o pequeno pássaro e para
o imenso navio que corta a paisagem...

Digam o que disserem, o sol continua
a dar de comer às miúdas florzinhas
que recusam outros raios por medo de engordarem...

Digam o que disserem, a água invisível penetrou
pelos poros de milhares de grãos e coloca
seu rosto estampado nos caules,
nos troncos e frutos e uma grande mordida
enche a boca de saliva,
senão que é água escondida no corpo
e que só aparece quando lhe apetece
em gotas salgadas no chão...

Digam o que disserem, esse ar que está tão quieto
nada mais é que o silêncio com rédeas e freios
a exercitar cada músculo do ruído domado à espera
da partida para a corrida sem metros
que alcançará o rumor que a suave brisa
lança do mar para exaustos pescadores...

Digam o que disserem, esse boneco quebrado,
encostado no canto, nada mais é que a ampulheta
quebrada que parou o tempo,
fincou funda estaca e nem o próprio movimento
consegue fazê-la andar...

Digam o que disserem,  ao parar suas pernas
e troncos e braços parou, foi, de fato,
com a rotação que nunca sentimos pois o tempo,
de fato, só medimos com ponteiros
que andam em vãs direções, como se a lã
que nascesse de novo fosse como um ovo
que repetisse no tempo movimentos inexatos
que só existem dentro da criação...

Digam o que disserem, ainda assim será tarde
para conselhos humanos na sauna de aulas
para onde todos vamos quando queremos perder
alguns quilos de alma adquiridos na lama,
no asfalto, no barro, quando andamos de carro,
a pé, e não raro ouvimos que a busca incessante
é que cura o apetite voraz pelo sangue que brota
incerto, constante, e mesmo assim, nesse instante,
digam o que disserem, saberão que a palavra existe
só porque o atrito persiste entre o senso comum
e a loucura que se esgueiram entre fileiras
e colunas de neurônios encharcados até a medula
do que comemos pelos sentidos que temos recebido
nessa travessia sobre o mar mais escuro
as vezes iluminado pelo sol como extensa
e amarela enguia.

Preto Moreno















Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 29/03/2006
Reeditado em 04/04/2006
Código do texto: T130573

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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