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Céu de Morto

O comprador vem
sempre
a minha casa:

um sobrado de
léus,
que
abarrota minha vida,
até tocar
o céu.

ele quer
de tudo
comprar:
minha paz
e tranquilidade
e oferece,
de agrado,
uma mulher
por cem
quantidades.

um dia acabo
comprando:
vai servir,
pelo menos,
pra amor
de graça
fazer,
e agora
sem cobrar.

o comprador
que se cuide:
não sou narrador,
mas sou homem
vibrador!

um dia compro
pra acabar
com essa
danada
de solidão,
da falta
do terna,
e de gente,
pra amar
toda hora.

tudo por falta
de amor
grosso e eterno.

mas sou bom
nadador,
não me afogo
mesmo se for
água na cisterna.

um dia eu
compro!
essa mulher
que já tem tudo
pronto!

é um armarinho
de novidade
e se inflama
por qualquer
dinherinho
de qualidade !


mas hoje
faço
festa.
são doze
dores
que emprego!

dó daqui,
dó dali,
dói tudo
feito
um falso
faquir.

por isso
me emprego
na solidão,
que bons
homem
vendem na
esquina da vida
que fica logo ali:

cruzando a avenida,
você vê
uma luz tosca
e emperdernida:

sou eu,
fazendo
hora prá morrer,
fazendo gestos
de quem só amou
na fazenda
dos aprendizes.

mas, aprendi
a lição,
quando
na próxima
vida
vier:
velho mulher!

e não dou de
colher.
vou fazer
igual:
matar os homens
de azul
com meu véu
da traição !


mas hoje é meu
dia
de
me esconder
atrás de meu
espírito.

carrego
um espelho
e reflito
nele o que
fui.

um mal esprego !

dei minha vida
por ela
e, bem depois,
fui posto
à venda
no amarinho
dos zendas !

as doces!
mulher
que me despreza.

e só tem
um motivo.

fiquei velho
ardido e
do trampolim
só pulo de bóia.

porque?
dilema meu!

antes era
esbelto e voador!
hoje sou
palha
de fazer fogo,
do tamanho
de um café
feito, sem coador !

passei do
tempo!
passei a
ser
rio
que não faz
enchente.

sou mestre,
sou rei,
sou príncipe
dos favores!

e ela
disso
não gosta
e já disse:

homem que é
homem
o vento não
leva.
homem que é homem
só prega!

e foi embora
sem reza.
me deixou
de pele rasa,
de saudade,
sozinho
feito anta
acuada!

hoje só sento
no patamar
da varanda
e medito:
como era bom
o tempo
que eu
brincava
de criança
e amava
feito um gigante!


já vivi
o que tinha
de todo
render.

hoje passo
na vida
igual
aço congelado:
eu prá cá,
ela prá lá.

que fazer?

tal tempo
é mesmo
implacável :
come a gente
e, de
sobra,
carrega
nosso amor
e nos deixa,
sem santo,
chorando
nas trevas !

hoje sou
homem de
sorte
batida !

vou reencontrar
minha amada
que veio
de
carruagem,
lá dos
pampas
só pra me
ver,
mesmo
com toda
esta friagem.

felicidade
minha!

hoje sou
visto e
chegado.

à mulher
empanada
de brios,
vem só me dizer:

amor,
de um dia,
não dá mais:
nosso eterno
amor já
morreu.

eu, muito
escolado,
vou replicar:

cobra-de-pico
só vêm
uma vez.

e quando
bate fica!

tô assim:
espero
você com
todo carinho.

mesmo, lá no
fundo do poço
da alma:

perdi essa
mulher.
e outra
mal encontro
de novo.

é a mulher da
vez,
que na sua vida vem,
e, nunca mais,
de formosas,
outras,
assentam,
nos pilares
do vento.

se perdi,
foi com
honra.

se ganhei,
foi um
par
de descalsos
que se chamam
em teoria
dos poucos,
solidão
de toda
falsa!

dor de
sem ninguém.

beiro lá
a saia dela
para ser
comido
na fila
dos que
esperam
pelo cadafalso !

sou contristo
e
de
fé.

abuso
um pouco
da sorte
quando baté
no meu pé.

tenho vinte anos
atrás.
e ela beira
os abusos
dos trinta.

por isso
velha ela está
ficando.

eu, contristo,
vejo
a bela
mulher
desmoronar.

por isso,
pra evitar
contratempos
acendo,
por ela,
uma vela,
e peço
também
ao vento:

faça dessa
mulher
uma
colher
de chá:

mas, se de
todo,
o tempo
eu infringir,
mal não faz,
porque a
quero
de qualquer
maneira.

meu amor
já não idade:
se somos
passados
ao fogo
do tempo,
brincamos assim
mesmo:

de eu te amo,
você me quer.

mas nós não nos
amamos mais:
viramos
cera de derreter,
viramos
fogo de
apagar !

Por isso hoje,
dia de santo,
brincamos
de céu.

um céu azul,
todo torto,
que até
parece
morto !
José Kappel
Enviado por José Kappel em 10/04/2006
Código do texto: T136655
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel