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Peças de Solidão

Um homem é feito de palavras e desejos.
Um novo homem não fica parado à espera de um novo tempo; um novo homem, de palavra, corre atrás dele, e faz seus princípios escorrerem em seu corpo.

O ladrão fugaz e dicidido que vida pode levar? É certo que ele usufruiu paraísos inesquecíveis e parábolas em ilhas mirabolantes e sutis.

Mas é certo também que, um dia a corda arrebenta. Neste dia, ele fica sem palavras e sem desejos. Fica à mercê dos amentilhos do homem.

É um puro fracasso interior decidido e pusilâmine, onde dilata o pior dos sentidos: a solidão.

De que adianta todo o dinheiro do mundo se o corpo vaga como estrela morta e a solidão das coisas o abastece de nervuras onde nenhuma resposta é resposta. E a dúvida da ânsia cresce como os lírios e flores num jardim abandonado?

Meu caminho é grasso, mas não é torto;
é vivaz e compreendido
pelos chegados e aparecidos.
Tenho pouca religião;
tenho medo do que possa surgir
das estranhas do céu.
Acho que puras e reluzentes estrelas!
Mas quem duvida?
Eu duvido e me amedronta como pássaro,
em arde na chuva
sob pingos ponteagudos.
Não sou eslavo,
nem sei onde fica.
Se tem alguma coisa
que perdi foi a noção
do tempo!
Mas que tempo é esse?
Tempo que me sacobe,
que me força a meditar,
que qualquer vento ameno
me faz derrubar?
Sou ameno,e não grego.
Nunca fui lá, mas sei
de antemão que tudo
nasceu por lá.
Se o tempo me carrega
leva também memórios inesquecíveis
dos outros.
Não sou eu sozinho.
Não carrego fardos ao léu.
De princípio tinha a coisa
de amor e vários sentidos.
Hoje ficaram as lembranças,
o poco do tempo e a eterna
indecisão:
Não posso partir, nem ficar.
Tenho que aguardar
como se aguarda
um trem.
Se ele apitar para mim
é o sinal da cruz!
Hora de embarcar.
Seu tempo chegou:
agora é partir prás nuvens
e saborear lá de cima
a solidão da luz
e o fragor do sol.
Se sou assim, assim sou eu.
Pobre, inesquecível,
mas sitiado por ânsias e
deveres.
ora, meu tempo de deveres
morreu no jardim de infância.
Quando meu pai foi junto.
Quando minha mãe, eternecida,
também resolveu ir.
Suicídio em família?
Os peças de solidão
montandas pelos homens
que encapuzam em mim.
Mas, suicídio em família?
José Kappel
Enviado por José Kappel em 17/04/2006
Código do texto: T140303
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel