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REZA BRABA

Rezo pelo cachorro sarnento que não usa Givenchy...
Rezo pela planta sitiada no décimo terceiro andar...
Rezo pela madame que não sabe o que é ser pulga...
Rezo pelo mundo cortado ao meio com um hambúrguer dentro...
Rezo pela vaca que virou hambúrguer...
Rezo pelo prego hercúleo sustentando vigas na casa de praia...
Rezo pelo manequim que ainda se move na passarela...
Rezo pelo anônimo que manda flores que sangram seiva...
Rezo pelo ditador que vai morrer sem ditar a hora da morte...
Rezo pelo resto de artefatos bélicos que enfeitam
museus mutilados...
Rezo pelo macaco-prego que dorme o sono dos justos
no laboratório...
Rezo pelos fios que levam eletricidade e não escutam música...
Rezo pelo menor abandonado que abandonou os adultos à sua própria sorte...
Rezo pelo corredor vazio que nem sabe que é um corredor...
Rezo pela mãe que não teve filhos e que não pode
ser chamada de mãe...
Rezo pela mãe que teve filhos mortos por homens sem úteros...
Rezo pelos abutres que não sabem quem somos nós...
Rezo pelos divãs cansados e que esperam o lixeiro passar...
Rezo pelo tempo que perdemos a pensar o tempo...
Rezo pela beleza que dura tão pouco dentro do genoma da geometria...
Rezo pelo lado oculto que se esconde do boxeador incansável...
Rezo pelas múltiplas fraturas da ciência e seu espírito empreendedor...
Rezo pelo mar, olho da terra, cheio de lágrimas...
Rezo pelo cachalote, pelo chocolate, pelos hotentotes,
hunos e visigodos...
Rezo pela fila com seus homens sem frente e verso...
Rezo pelas grades que não deixam o quintal sair...
Rezo pelo quintal que não deixa as grades entrarem...
Rezo pela toga, pelas vísceras, pela justiça impunemente justa...
Rezo pelos esteticistas que adorariam produzir outro Frankestein...
Rezo pelos cegos e por tudo o que não viram...
Rezo pelos pássaros, astronautas sem cápsulas...
Rezo pelos filósofos que são enterrados em missa de corpo presente...
Rezo pela Igreja e pelo Papa, igreja que fica e o papo que virá...
Rezo pelos suicidas que deixaram cartas estranhas à famílias
mais estranhas ainda...
Rezo pela noite que não conhece o dia e seus estranhos cortejos...
Rezo pelos doces elefantes que não usam pulseiras
de marfim...
Rezo pelos esquifes que levarão patifes ao jantar dos vermes...
Rezo pelas lâminas que rosnam às vulvas plurinascentes...
Rezo pelo buraco da agulha e a sutileza do camêlo...
Rezo pela imunidade celular que evita contatos com a insanidade parlamentar...
Rezo pelos novos desvios que levarão verbas aos famintos que erram...
Rezo pelas cidades submersas em cálidos vapores...
Rezo pela cripta bancária sem extrato vegetal...
Rezo pelos negros vivos e pelos negros que conhecem
o que é cor...
Rezo pelas canções prematuras que soam como guinchos...
Rezo pela bolsa de horrores e pelos computadores que não dormem...
Rezo pela demência presidencial que não ouve os gritos lá de fora...
Rezo pelos meus irmãos escondidos em suas tocas ôcas...
Rezo pelo mesmo motivo de quem não reza por motivo algum...
Rezo pelos que ignoram a fauna e a flora e se alimentam de pús...
Rezo pelos bebês levados à êsmo pelos bebês de sonho mesmo...
Rezo pelo inconsciente que saiu de casa cedo e ainda não voltou...
Rezo pelos poetas e pelos poemas que não servem para nada...
Rezo pelos homens, mulheres e crianças e pelos outros reinos também...
Rezo pelo que sou, pelo que és, pelo que nos tornaremos amanhã...

Preto Moreno






















Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 17/04/2006
Código do texto: T140418

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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