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ÉPURA

Porque penso escrevo.
Se o que sinto é falso
e nada me faz medo,
imagino coragem, acho.

Tomo da caneta que treme
e dá-se a dançar palavras
como borboleta que geme
e dá adeus às larvas.

Esqueço-me horas a desenhar
a dança que me vai n'alma
como se me faltasse completar
o último passo, a calma.

Se busco dentro, nada encontro
que me faça concluir idéias,
tal fantasma, posse do sonho,
visito no espaço infinitas colméias.

Trago à sala da cabeça o pensamento
e nele, que sou sem ter sido,
vago vulto neste justo momento,
abraço-me como a um amigo.

Mais perto da ponte, mãos no corrimão,
vejo a estranha forma que baila n'agua
como se vivesse dentro do coração
a fúria, o som, a guitarra, a mágoa.

Um beijo de bebê roça-me a face
e um sorriso fustiga-me todo
como se tivesse visto o que nasce
em pré-forma fora e dentro do ovo.

Dizem que separo o corpo da alma
e um ao leste e outro ao norte
como mensagens de ciganos em vaga
onda em que bailam os olhos da morte.

Manhã tão doce e gôsto de chuva
e leite e pão e manteiga insossa
que me deixo na videira como uva
aos lábios que passam em bela moça.

Fumo e vejo a vida sumir na fumaça
e nela sigo os ancestrais do tempo
e velozes sombras me ultrapassam
numa correria de touro sangrento.

Essas sementes que trago e mãos vazias
são castelos que visitei em vãs batalhas
quando me restava contar às ilhas
o mapa da carne que a vida entalha.

Por não me escorrer o nariz e nem os olhos
e não existir em mim esse humano prazer
tinjo-me de tintas em que misturo óleos
como tarefa absurda por não ter o que fazer.

21/03/2000
Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 21/04/2006
Reeditado em 27/04/2006
Código do texto: T142869

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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