Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Voraz Alimento dos Mendigos

Quero isso, quero aquilo,
sou agora comida de mendigos!

Sou afoito,
guerreiro,
e homem sem pátria
e sem ninguém, de dois pares!

Sou correcional e inreligioso
sou avestruz de penas largas,
sou tirolês,
sem montanhas
e sem esperanças.

Tenho poucos amigos
e duas dúzias de inimigos
E todos me chamam de
passageiro.Homem vicinal.

Mas quero isso, quero aquilo,
quero um copo d'água com aguardente
quero uma família prá ficar!

Agora vejam só: o Natal tá chegando,
ou já passou - minha embriaguês é pouco
sóbria e sem sexo.

E vejam vocês o Natal tá chegando
e eu não tenho a quem prá proximar
nem prá dizimar!

E dizem - só comprando!
porque de livre vontade ninguém vem.

Compro sim uma caixa de champanha e
um engradado de mulheres bem pagas.
Daquelas que saem do bolo!
E faço meu Natal bem comprado!

Ninguém prá dar ninguém prá receber.
Mas porque inventaram o Natal?
Se nada posso dar, nem me precaver?

Sou pena vazia
escrivão sem cautelas.

E quando estiver todo mundo a festejar
Estou eu lá a chorar!

Perdi tudo:
dois pares de sapato,
um manual de prontidão,
um chinelo de cor marfim!
um corrimão de cedro
e um chapéu de velho!

Perdi até ela
que nada tinha com a história
mas entrou, sem quer, ventre adentro!

Foi só abrir a porta
e ela entrou
ficou dois minutos
Viu que não tinha Natal
e da mesma maneira se foi.

E elevou parte de mim!
Mas também era tudo pago!
De pouco valia tinha,
Até para o mestre das águas!

Hoje, sozinho, lembro pouco do
que restou de mim!
Mas o que restou?

Minha pouca sobriedade
não me deixa pensar !

Uma viagem ao Texas?
-Pouco me lembro!

Hoje, sozinho,
sou comida de mendigos
sou forte a foito,
torto e descabido
vivo de bar e bar
a procura do Natal e sua gente.

Nada encontro, senão penas e lembranças.
Mas disso não quero lembrar
E não tenho o que mais pestanejar.

Mas na noite de Natal, juro eu,
Sou sentar, de manhãzinha, no primeiro
bar aberto!

Vou sentar e pedir dois aguardentes e um copo d'água
sentar lá o dia inteiro
e escrever um poema.

Já tenho até o nome -
pois tenho um caneta Bic -
de pena leve -
Mas de nome será:
comida dos mendigos!

Avê eu, avê tu
A vida comeu
o que da vida sobrou
e eu a mim,
só de tentar,me derrubou!

*

" Se me escondo, me acham; se me acham trazem em bolsas flapos e solidão. Se sou fruta-doce, sou comida de mendigos. Uma festa no sozinho é uma parte dela.

O que ficou, ficou para atrás. O que está presente são lembranças, fáceis de lembrar, rútilas para chorar. Não faço por menos, sou guerreiro de duas flechas.

 Uma para saudar os nobres, outra para guardar eternidades.Se sou guerreiro, minha tenda velha ficou. E se vivo sozinho é porque no castelo de milagres estão esgotadas as entradas e as portas estão cerradas. Se ofereço, me negam. Se me compram, compram os mendigos.

Ah! os mendigos! Já sou comida de mendigos! "  
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/04/2006
Código do texto: T146042
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
2147 textos (26783 leituras)
1 e-livros (125 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 16:11)
José Kappel