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Nada a Perder

" Se me perco diante dos dias, deixo um pouco de mim com os outros. É uma felicidade interior. Felicidade de gente grande.Felicidade de pouca valiaou pouco peso.

Se ganho oportunidades, perco-as de imediato. Igual a um capitão de navio que não se sai bem diante das ondas e da turbulência e acaba de naufragar.E acaba sendo comandado pelo próprio mar. Sua ânsia morre ali. Se ganho, as perco.

Modo de dizer: tenho quatro filhos grandes e quatro pequenos. Sucumbo diante de todos por incapacidade de notar que eu fui um instrumento ou uma bússola para eles.

Fiz-os e não os compreendi. Foi uma graça perdida diante do tempo. Hoje, de sesmaria, me resta o consolo apenas de sobreviver.

Se ando, pestanejo, se falo, guaguejo. Se procuro, nada acho, senão entulhos passados e coisas perdidas que o bom tempo não trás mais.Coisas sem importância.

Tudo isso prá dizer que diante da notoriedade da vida e de seu esplendor, eu sou parte de milagre , mas não da plenitude da vida.

Se sou milagre, sou resto de vida. Ela escorre em mim com mãos de angústia e perdidos sonhos.

Tudo isso prá dizer que hoje, além de perder um alguém que nunca tive, ganhei uma montanha de solidão que só os mais sábios saberão alcançar e de lá fazer plenas escadas para o interior dos campos dilacerados.
Corpo?

Mas que corpo?

Se sou andarilho de duas pernas. Uma espécie de mendigo moderno que só pensa uma coisa na vida: como sair dela! "

*

Não há nada perder,
se você não considerar
áreas materiais como percas.
Mas quando comove coisas
do espírito,
a gente se atordoa
e passa a não saber se medir.
Já não sei medir meus passos
e preciso deles para alcançar
luas desfeitas
ou perdidas
na imensidão
que mal eu entendo
de larguras e profundidas.
Eu sei que é
um mergulho profundo
e, talvez, não meça
fundos para colher
algo que você sabe o que é
mais tem
medo de descobrir.
Porque está dentro de você
e é dificil se desnudar
diante do tempo.
Coisas infantis. A gente
trás de lá.
Quando a gente era pequeno,
cada um era um filho e o
próprio pai.
Hoje somos apenas filhos.
Se me vêm rezar, me afasto,
como se corre de uma tempestade
premente.
Se me vem cobrir,
peço apenas algodão estampado.
Não posso mais correr; não posso
mais entrar diante de mim.
O que tinha de resto e entolhos,
me levaram.
Vida cinzenta esta!
Toma e dá.Dá e toma.
De tudo, perdi. Ganhei
largura de espírito
e uma rosa feita por ela
-Maria dos Anjos -
que de santa tem os dois:
o nome e o espírito.
Pois foi neste espírito
que me sacudi e descobri
que além de uma porta, há sempre outra
prá abrir.
E chega um dia, um radioso
dia que você nada mais consegue
abrir, e mal fechar.
Você ñão é mais dono de si.
O si pertence a negritude do
espaço onde tomare,
habitem espíritos afins.
Mas que correria é essa?
Penso alto e trôpego
diante das inutidades
das coisas,
supostamente valiosas.
E olhe: De evalia em valia
sou mais eu.
Porque bebo todo dia
a música do Imperador
cujos sons vão morrendo
dentro de mim.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/04/2006
Código do texto: T146043
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel