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Bucha de Canhão

Sou de várias utilidades
e permanentes ansiedades.
Não me poupo com coisas vãs
nem me retraio na áurea ansiedade.
Tenho dois rumos,
e dois irmãos.
Tenho um pé de maracujá
e colho anchovas.
Coisas de criança
que não envergonho de
dizer - queria ser mais uma.
Na primeira eu tenho guardada
num armário de grandeza
secundária e meio carente.
Na segunda, eu me perdi quando
estava exatamente no meio dela
- época que vivia bastante coerente.
Mas o tempo foi passando
como passam argutas as
árvores numa janela de trem
desvalido.
E sempre pensava comigo:
como tem tempo essa gente!
Nada de especial de ontem para
hoje, dizia. Mas que monotonia,
pensava.
Hoje tudo de especial vem ao meu
encontro.
Hoje a monotonia é coisa
constante e pérgula dourada.
E no tempo - penso eu -
enquando agendo com a
secretária o dia de amanhã,
tudo passa, menos o ardor
que você sente de que
nada pode ser feito prá tudo
virar de cabeça prá baixo
e o zoneamento da vida
se tornar ordem unida -
- assim como nos quartéis.
Logo, passo meus dias de
bom proveito,
comendo uvas amaciadas pelo vento
e pêssegos quase dourados
de tanto sol.
E me pergunto, a toda hora,
Se estou preso num canhão de bucha,
- e com razão,
porque o mundo não virá outra
criança e tudo não para de rodar
como se fosse carrapeta de criança?
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/04/2006
Código do texto: T146045
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel