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Condizente e Pacífico

Sou condizente e pacífico
tenho dois patrões,
um cavalo e um patamar;
não sou rico pois me falta a
beira-mar.
Tenho lá minhas angústias,
mas todos já se reuniram,
e disseram: isso é coisa
passageira - coisa de bonde
andando.
Mas não é. Os bondes passam
e as angústias de canseiras dos outros
voam pro meus lábios e
eu só sei susurrar - socorro.!
E não falo só pelo povo
deste tenho gosto:
adoram quebrar, com raiva,
suas próprias coisas
quando entram em rebelião
e formam aquela multidão.
- E ficam aqueles soldados lá,
cheios de cães.
Já disse que sou pacífico,
mas não contemplativo.Sou ativo,
dono de duas mulheres:
uma, que me põe na cama
quando, de bêbado esbaforido,
espanto até os animais; e, outra,
- preventiva - rezadeira de almas,
que já jurou que vai
chorar como nunca no meu enterro.
Sou grato, por isso.
Tenho também a graça de ser
o que sempre quis:
o pacificador das horas alheias.
Todos que tem problemas
- geralmente sexuais
e assim facilmente solúveis -,
me procuram mostrando
os dentes.
E levo minha vida assim;
gosto de alho ardente,
mas dente não tiro!
gosto de azeite popular
pois me dá um ar angular.
E me levo assim.
Um dia, um dia destes,
ainda vou perguntar alguém
estudioso do povo,
das almas alheias,
o cultivador dos pecados
de cada segundo,
vou lá eu perguntar:
Meu Deus, meu Deus,
prá que eu
fui nascer?
Se nem ao menos sei crescer!
Mas uma coisa herdei e sei fazer:
só peno a sofrer !

*

Vale a pena ser
tentado
por todas coisas
e, como toda tem seu senão,
fico por quase todas.
Já fui tentando por espinhos
doces na minha infância que me viam
sobraceiro como
um boneco vivo;
já fui trocado por
brinquedos que até hoje
sonho com eles,
mas em troca tinha
que desaparecer do que
era para ser o
que alguns queriam.
Faltava pão, dá-lhe o cão!
Fui tentanto a vida toda
e, em todas cedi.
Não que seja cultivador
dos milagres, mas sempre
ansiava por um
que me fizesse dono demais
de mim e não
precisasse entrar na
fila que era sem fim, um retão!
Que culpa tenho
que os céus assim quiseram?
Cada um nasce predestinado.
A minha foi ser sem clase
e perder toda minha arte.
Hoje,já velho e dolorido,
pergunto prá mim mesmo.
Se não fosse eu, quem seria.
Na terra eles não escolhem
por bondade.
Fazem dos outros um kit de
segurança para suas
abolições,
principalmente na rua Camarindo,
onda morava e virei
sol para uns,
lua para outros,
mas sempre
carregando uma mensagem:
morre enquanto é tempo
senão o mundo vai acabar,
num arranjo especial,
tocando a falsa do
desespero
prá você dançar.!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/04/2006
Código do texto: T146050
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel