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CIRCO-POEMA

Reuni todos os poemas que escrevi
e dei-lhes o aviso:

A partir de hoje não procrio mais.

Dito isso, derrubei cercas
e desinventei quintais.

Elas, as palavras, loucas de alegria,
saíram ao mundo como boas-novas;
crianças da noite ao meio-dia
em brincadeiras de sons e trovas...

Combinava eu coração e medo;
mais, ajuntava esperança e fé;
elas, sem cravos e travas e segredos
andam agora pelos próprios pés...

Um dia, num poema vazio de platéia,
derrubei um equilibrista de circo;
em forçada junção, quase alcatéia,
as palavras, de espanto e horror era um misto...

Decidiram (e o fizeram) reviver o equilibrado;
aqueles versos vazios de sentido e sentados
viram do chão a alma levantar-se
como um grito que escapa da catarse...

N'arquibancada, rostos felizes e sadios
se admiravam ao ver o ressuscitado
ressaltar saltos com seu corpo esguio
como se estatelado nunca estivesse estado...

Ao sair do circo-poema mais aliviado
deparei-me com um elefante em doce súplica;
um tanto antigo, quase porcelana, alquebrado,
sustentava uma lágrima ainda úmida de música...

"Livra-me de pertencer ao mundo como um verso;
devolva-me à floresta que tenho n'alma,
é só esse o desejo que tenho e peço,
sem inumano furor, em doce calma..."

Perguntei-lhe se parente era do elefante
que em cacos vira num poema do Drummond;
ele, infenso à fama, mas todo elegante,
trombeteou-me em alto e bom som

que nas palavras somos todos parentes
pois delas viemos como num sopro ao pó;
que somos todos do mesmo sol, poentes
em relances de luzes, trançado cipó...

Socorreu-me a caravana de palavras
dando ao herbívoro o sonhado destino,
posto que o vi, em poucos segundos,
caminhando ao lado de um mirrado menino...

Em frente ao circo, ao lançar uma última olhada,
vi a porta do dicionário abrir-se em leque
para receber as tais palavras que um dia moraram
em frases, versos, poemas, salamaleques,

e, ao se fechar, lançou-me um sorriso fugaz,
como que dizendo que também eu lá estava,
pois quem tinge o branco com seu pincel tenaz
procria paisagens em eterna lavra...

Basta ao poema seus versos e rimas
sem consultas e receitas do escrevedor;
palavras são irmãs, mães, tias e primas
que se abraçam antes do espetáculo se pôr.


Preto Moreno


 




Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 27/04/2006
Reeditado em 27/04/2006
Código do texto: T146292

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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