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O RISCO DA LUCIDEZ

Ando vivendo, não raro,
momentos de uma clareza absurda.
Estes momentos, é claro,
chegam num lapso, um espaço pequeno,
mínimo, entre o calar e estar muda.
Veja que não é a mesma coisa,
nem a diferença é pequena.
São momentos de clareza tamanha,
de uma lucidez extrema,
que como num poema da Clarice,
também me pergunto o que se ganha,
também fico a pensar,
que não sei de que me serve
tanta clareza de realidade,
tanto enxergar o nada,
tanta compreensão da verdade.
Ver claro é um risco, uma cilada,
mais fácil é entender a irrealidade
do que a realidade da estrada.
A visão clara abre espaço para o nada,
a visão daquilo que é,
fecha a porta do que acreditávamos ser.
Ver claro muitas vezes turva a fé,
abre buracos  e valas
nas crenças que pensávamos ter.
Fico, por assim dizer,
no limbo entre o que é e o vir a ser.
Um intervalo milimetricamente pequeno
entre o que sou e o que penso ser.
Perigosa clareza, arriscada lucidez
que impele a sair da acomodação
de viver numa espécie de viuvez
da minha cômoda resignação
de viver no irreal confortável,
de desistir da cegueira de então,
e persistir no imperscrutável.
Insistir na visão do intervalo
pequeníssimo, mas ostensivo,
entre o calado e o que falo,
entre o que sonho e o que vivo.
Como usar tanta lucidez
em meio a tanto (pre)conceito,
em meio à geral estupidez?
Que Deus (ou a Vida) me permitam existir,
persistir e consistir,
no claro e no obscuro,
no estar e no porvir,
na luz ou na sombra escura,
e de mim mesma me rir.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/05/2005
Código do texto: T14683

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai