Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Dedo Que Fere

até o fim
bem longe
do mundo...

chegando perto,
sujo ou limpo
tô indo prá lá,
decerto!

aqui não fica nada,
aqui é água
doce
é ponte sem destino.

uma vírgula,
tonta,
caiu em meu
copo
azul-marinho,
de dose
que a gente
toma com gula.

um desmonte
de
desdém!

2.

O CAOS

fui de teste
em teste,
procurando festa
nos bolsos
dos homens.

fui mal visto,
e celebrado
como
colossal
fariseu.

era o
Dedo de Agulha
que nascia
em meu
corpo,
fogoso,
ácido,
afugalhado.

fui ácido,
viseiro,
quase
insensível,
mas, quando
me vi
no espelho,
na volta,
já não mais
o plácido
e vesgueiro
homem,
me retirei
dos ponteiros
e fui marcar
as poucas
horas.

navegava em
duas tábuas,
refletia em
mim
o morno
insulso do
sol,
e a débil
lua
desanimada.

em meus
graves sonhos,
tidos
de meia-idade,
só vejo
os passos
dos que
foram
sem viver,
e os vigos
dos que
vivem
sem saber.

na festa
dos homens
mal-amados,
sou o mais
falido,
o mais tentado
a me fazer
agil
comandante
dos
desarmados.

e se o Dedo de Agulha
me fere,
fere a você
também.

tira e põe
e sai
fagulhas
de pão.

de leve,
somos todos
esperados,
somos plumas
que voam
pro amanhã,
sem saber
que dia é
de morrer
e prá sempre,
e dia de viver
é do agora, que
não cansa
de esperar,
igual à luvas
desesperadas
de preto.

e se você vive
no tempo
do Dedo de Agulha,
saia do fronte
porque,
bem lá tráz,
vem um
cajado de vento.

é a vida e a morte
de mãos dadas.

e viva você!
ria da vida
e chore na ida.

quem passou,
passou,
igual às,
ficou.

quem tem,
já perdeu.
quem é,
daqui há pouco
já não faz.

e,ao longe,
a morte
oca,
brinca
de cerejas
com a vida,
e a vida
vai iluminada
ancorar
em outro porto.

vida de torto,
pois no
Dedo de Agulha
todo mundo
peleja,sem
vela,
sem horto !

3.

A FÚRIA


fui furar
a fila
do amor,
e acabei
de copo
e cucuia
na praça
que fica
bem defronte
à gota de ira
que ela tem
de mim.

paciência,
não sou
de ferro!

já não tenho
mais idade
ou
portal.

mas dela
eu sabia:
é silaba
tônica
na minha
vogal.


conta uma história
sem véu,
parecida com a cor
do céu!

que eu outra
eu conto,
bem clarabóia.

fomos criados assim:
juntos prá cá,
remédio de sarar
prá lá.

fomos nós dois,
unguento de paz.

se um dói,
outro
cambaleia,
e se corrói.

é uma história
vasta
e colorida
mas não precisa
chorar tanto
não é tão
dolorida.

tem verso de amor,
prosa e canto,
flor de encanto,
que beira seus
lábios de acalanto.

nossa história
é igual a outra
qualquer:
muitos beijos
que fazem o homem
de glória!

mas não se
avexe por mim;
sou cavaleiro
de paz,
andor
da esperança.

minha história
é fácil,
coisa de criança,
baderna de zona,
se veste de rosa
e se chama maria.

tudo foi bom
e o bom durou
um tempão.

ela era
o início da
vida,
e eu a semente
pujante,de
verve
arrasante.

deveras, maria,
só precisou
de dois minutos
pra você achar
outro caminho
de calmaria.

eu, de gênio
nobre e vasto
nele me perdi
e, de ciúmes,
parece que
agora comemora
um milênio,
que você se foi.

foi prá lá
pra fazer
novo início
eu fiquei
com a porta
no rosto,
com tal
despedida,
vasta e
ilícita.

4.

COSMO DE SOL

a história é
essa:
dois passos
prá lá,
dois prá cá.
abre a janela
que de vôo
parto eu
sem laço.

se você viver
um grande
amor
lembre-se desta
história:

um dia você é rei,
noutro,
capacho sem lei!


mas aqui não
fico mais
por questão
que mistura em fel
até a aurora !

ao longo da
discódia
nunca houve
afagos.

ao longo do
caminho
menos sol,
rubra lua,
caminhos
tortos,
ficheiros
de breu,
andam sempre
juntos.

sem se falar,
sem se dar.

ora!
calça a bota
que eu visto
a sola!

cair,
sim senhor,
caimos!

se deu
grito
é de dor.
senão,
foi a
paz
que antes
chegou,
com a bandeira
em cruz.

ora,pois!
dúvidas
a gente tem.

desconfianças
nos assolam,
rasgos
de perguntam
do
porquê,
e porque
daqui pra
frente
eles só
sabem
fazer
e untar.

o tempo
deixa passar,e
mais tarde,
ele se apressa
a cobrar.

e se cobra!

dívidas dos
comuns,
afeitos
à graça
do amor,
refeitos
à sombra
dos jamais
que nunca
viram
cor!

rubra a febre,
empesta de ramos,
que é só dor,
que até
fere a
pele.

um dia eu,
outro você!

caminhar
juntos
só em pensar!

o que nos separa
é mais forte,
temido de
guerra,
premente,
e sem medo.


não teme gemidos!

o que nos separa
é a fonte.
o que nos une,
é a ânsia
que não
atravessa
ralas
pontes.

fui prum lado
você pra outro:
de dois em
dois,
nos largaram.

você pra lá,
eu pra cá.
sem poder
ao menos
poder achar.

hoje,o tempo
se passa e
bem longe
nos deixou.

não sei mais quem
você é;
duvido que eu
saiba quem sou.

no mais,
espero que a vida
rode
e cheia de
de repentes,
você me enlaça,
enquanto canto
a ode.

Porque, no fundo,
sou trampolim
da roça,
e festa de saudade.

é comigo mesmo:

sou afeito
à fogueira
de pular,
da batata
do comer,
e de mulher,
junto,
só prá amar!

5.

VENTRE DE DISCÓRDIA

e não sou
visionário,
sou simples,
igual
aos missionários.

fali!
decerto
que fali!

sem desacertos,
com direito
a enterro
de flores,
e coroas
de azul,
até bem
feitas!

fali!
cai de
um pedaço
do mundo
pra outro.

fui enlace
dos pobres
e sem rumo,
só aos pássaros
faço encantos!

pobres!
que choram
cântaros de
mágoa
redimida!
aqui não
tem vez, não!

aqui,só chegam
os vândalos
sem canto!

agora,
tá todo mundo
perto,
mas depois,
fica
todo mundo
bem longe,
nesta estrada
longa
decerto!

tô andando
prá frente,
mas,sei,
estou
indo mesmo
é pros
bentes.

aqui ninguém
gosta de ninguém
nem o próprio
capataz.

azar!
batida de mel,
não dói nem
ao sincero rapaz!

gosto dela
até o fim
do mundo,
mas cheguei lá,
e nove foras,
metade de tudo,
ela também fugiu,
prás araras
de casas
imundas,
de casebres
sem fundo!

to caminhando,
há um tempão,
na sombra
e no sol
lá fainando!
lá penando!

decerto!

não consigo
ir mais
longe;
porque verso
não tem
mais
e a prosa
morreu
de velha
e sem
inspiração!

nem a fonte,
bem iluminada,
desperta mais
amor,
pra quem vai
sem cor,
depressa,
correndo,
prô
dia
de ontem.

ontem que
parou de
existir,
quando
de lá surgiu
o cálice do
brando sol,
e, a persistir,
dobro,
o que fugiu!

nada dela
por aqui
sobrou:
nem uma canção
leve,
nem um perfume
de Cantão,
só um abraço
feliz
de não voltar
mais!

não volto,
e a concordar
retorno sem
mais elos!

deixa o tempo
passar
com vasta luz
sem vândalos,
deixa o tempo
correr.

chegar e mais
chegar,
sem ter ido
a lugar
nenhum.
tudo vago,
reprimido,
tudo de pegar!

nisso errei.

ou em quase
tudo errei.

por pena
ou por ser
de bento,
por comiseração
dos eleitos,
fui colocado de
lado:
mas, um pisa daqui,
outro de lá!

dá dor
de dó,
e a gente
fica
igual
a pão-de-ló!

pisadas iguais,
esbarrando em
dores
coniventes,
iguais aos da terra,
alados!

fazer de dó
era prazer
dos homens
colados mais
ou menos
de pó.

são de cor de
abóbora lilás,
enfeite
de gravatas,
ganchos
sem simetria.

parentes não
eram!
suponho,
são errantes
errantes!

amém de dois!

quem já morou
lá na roça
de meu avó,
bem sabe
que animais,
são, de repente,
mais fiéis
do que
o mais rente
dos homens.

e o amor
desbelta
igual.
é diferente,
de casca grossa,
feito de amarras
de beijos,
alentandos por
cheiro de
jasmim
perfumado.

por isso primo
pelo augusto,
onde lá fora
junto à arbustos,
fazem o primeiro
amor sem desdém.

pena!
com mais carinho
só prá fazer
neném.

fui brusco,
passo da
hora,
atropelo homens,
ando em
charretes
de minha infância
de dois nomes,
um pai, a bela
mãe,
e os gafanhotos
que morrem
sem esperança.

6.

FERIDA DE SOL


aprendi a escrever
por dever,
desaprendi
lendo
os artistas
de pena, e
carrapichos
de
que nunca
ofendi.

me parto em dois,
por sofrer
na floresta
feita de arquivos,
morando com
esquilos,
chorando
fácil
por tudo
aquilo.

hoje se foram:
o início e o fim,
todos bem partiram;
se é demais dizer,
um torto e afogado
no tonel da vida.

eu, esperto,
só rezei.
e de perto
esperei
ele levantar.

qual. mortos
não andam.

mas na minha
terra de ócio,
perto da rocinha,
mortos andam sim:
depois da meia-noite
das almas,
de pó se tornam
gente!

que agouro!
que aperto!

ter medo do
próximo que
se foi
prá terra
de não dizer,
só sei cantar,
prosa e verso,
e, de pouco,
aprendi a
chorar.

não lamente não,
amor de roça
é assim mesmo,
tem trilhas
e longas
sombras
prá você deitar,
e cálido amar.

estar na estação
de chegada
e partidas,
não quer dizer
que você fique,
não quer dizer
que vá.

você é um ponto
de espera,
um momento
da vida,
abrigado
de lanças
partidas.

7.

PARTIDA DE ADEUS

tudo começou
porque o
destino
quis
e, se não
quisesse
aconteceria
de novo,
com terno
de aceno,
com lenço
branco de
despedida,
com a mulher
de entraves
a dizer;
vá ou fique,
homem de deus,
mas no tempo,
não fique
a rodar
feito venus!

sonhar
agora
nem vale a pena,
dá dor,
cobre de poeira.

os poucos
anos
já lavados,
que fizemos
juntos,
um pouco
de vida
sem saber,
era onde
tudo
pulsava.

uma zoeira!

hoje mais
homem,
meio criança,
chego na rua
de nós dois
e só vejo
grandes cimentos
sem sombra
de jardins,
ou riachos,,
cimento de verdade,
puro,
erguido pra arder
de saudade
quem um dia
viveu por lá,
e, agora zonza
por calçadas
de pura alvenaria,
sombras de gente
chegada à
ordem da
selvageria!

azar
dos feitos!
sou nascido
mas peco
ao falar.

um dia,
tal qual o sol
e certo
igual à lua,
tudo vai
nascer em outro,
onde vão contar
a mesma história,
onde vão irradiar
nascedouros de
ouro.

e juro!
ao partir,
vou sozinho
travando
no caminho
de roça,
minhas
roucas lembranças
minhas vestes
de andarilho
coberto de falta
de amor e
rasgos de
carinho.

azar!
mas não
sou ferino!
sou
peregrino!

azar!
errei!
por gostar
de jasmim,
mas
fijo que passo
mas sou corda
de laço
e fita de carmim


8.

BARRA DE LUZ


deixa a mão
só prá beijar,
sem paz,
sem alaridos,
sem casa
branca,
sem paço,
só com o
vento brando
a alisar
a face roseada
de feixos
de luz,
de feitos
de homens
sem cruz!

cansei!
de parar,
cansei!

hoje, volto
cheio
de esperanças,
mas lá morro
na vã
tentativa
mas sem ranço!

hoje é dia de quebra,
hoje é dia de festa,
rumo meu corpo
pra ela,
que se queda
no vazio
de duas vidas,
que se foram
rodeada de belos
hortos
e flores
mais de festas
do que
- cruz em credo -
rosas de
pouca sorte!

sei lá se posso,
mas decerto,
cansei
feito homem
de bruto aço
que se queda,
flácido,
à luz
dos sem velas!

hoje é dia comum,
pasto de feras!
homens de Zeras!
faz dela
a chegada
de
minha flor
de espera!

sou perto
e sou longe.

sou de festa,
mas não me caso
mais com
mais nenhuma
bela
que vive nelas!

se meu vôo
é longo,
passo-fundo
a gemer.

fui uma vez
pra nunca
mais ter vez.

sou a sobra
a espera,
a chegada,
e as lágrimas
que, agora,
oro.

por céus,
meio-a-meio
faz de mim
um rei
de chegada,
vestido
de carmim!

vou embora,
doce amora!
volto um dia
e você
me namora!


mas,

cansei!
penei e
fanei!

regra
não tem!
a prosa voa
e a poesia
é alegre.

decerto!

no final dá
tudo certo!

tem muito vinho
e taças
mortas de
tanta alegria.

passo ao largo,
sou torto,
sou caça
e dízimo dos
pobres,
sem ao menos
saber cantar
a fúria
desmedida,
com tamanho
beleza de verso
que me enlaça.


9.

LUZ DE NÉON


fui todo,
fui devagar,
de cântaro
na mão,
e o verso
na outra.

decerto!

por partes,
e por feridas,
ninguém é,
pelo menos
não
mostram
o vão
ferino!

fui de adeus,
sem beijos,
ou próximos
abraços,
fui triste,
pois os homens
de ásper
só cantam
a mesma toada
sem enlace!


sou pobre,
sem
nascença,
poeta
já sem
crença.

desfiz o encanto
sem pranto.
desfiz a mágoa
sem canto!

de um lado
os melhoranças,
de festa rápida,
de bebida
curta,
mas de
frases
belas,
cheias de
almejos
com amêndoas
de amor.

fui chegando
sem sair,
fui olhando
antes,
sem parar,
mas sabia
que por traz
do moinho
havia uma multidão
de ranço,
portando bandeiras
de avante!

fui grego
e troiano
paz e guerra
e hoje não tenho
como forjar
a espada.

que inimigos?
que me enfrentem!

sem pedir
uns centes
sem se humilhar
no cadafalso
sem lenha!

fui embora
sem vez.

de certo!
é sua vez.

e digo
sem
chorar,
uma vez
fui eu,
na outra
errei
e passei
da lei!

tô preso
aqui e lá;
me fazem
falta

ternos amigos.

mais
é
onde
de ferinos,
recebo

presentes
de falsos
peregrinos,
da larga vida,
de altos
passos!

juras!
não mais
são
fulminantes,
são remendos
de amor
de turras!

nem a entrada,
nem a
ruminante
saída,
tem
sobras de
luz,
só restos
de amantes.

juras
agora só de
longe.

decerto!
não sou
monge!

e vou sem mala,
e vou sem cuia.

são ainda
de belos,
mas sem
violas,
sem ela,
pobres seixos,
sem a prosa
e o verso.

vou sozinho
procurando
um novo elo.

decerto!
o rei morreu!
de perto,
bem de perto..
lá vou eu!

entrar de vez,
no Dedo de Agulha,
que a tenra avô
me fez!
mas para jamais
tudo
esquecer!

11.


A PÉRGULA

contato
é coisa
imediata,
frugal,
tem gosto
de gosto
de doce,
e, de fato,
é prá de
enlace.

contato
é coisa
mística,
é de leilão,
contato,
é par de
dois.

vira daqui,
rola prá lá,
de costas,
ou de frente,
tudo é faz
o ato.

contato é
físico,
e pode ser
até
metafísico,
e, se mal digo,
tem panela
de sexo
em seu fogão,
e termina
quase sempre
na cama quente
ela de cá,
nós prá lá.

ave o
nosso contato
de cada dia!

pois sem
ele
não é relato
de homem
e
mulher
no cálido
quarto.

na vida
tudo termina
em contato
serve gata
azul ou parda,
verde
ou esmeralda:
o negócio
é fazer
contato
e sempre,
sempre,
muito
demorado.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 29/04/2006
Código do texto: T147207
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
2147 textos (26783 leituras)
1 e-livros (125 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 18:55)
José Kappel