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Duas Arcas, Duas Farpas

Sou homem de duas arcas:
uma prá ir, outra prá voltar.
Hoje é dia de ir - e preparo a mala!
Quando é dia de voltar
lá vou eu e
outra vez preparo as asas.

Quero ir é muito mais,
do que simples partir,
também quero voltar!

Não quero ficar parado
igual a uma gazela atada.

Quero partir e quero chegar;
partir, sei que fui,
voltar, nem sei ainda onde vou parar.

Mas tenho uma arca de dois fundos.

Na mala guardo objeto muito pessoais:
um alambrando com arames pontudos,
uma cerca fincadas em paus tortos,
uma escada para descer,
uma porta semi aberta
e um bocado de vento .

Prezo muitos as coisas que tenho,
Mas não sei rezar por elas!

Sou todo familiar: não frequento casas
de alegria, nem de azar;
não jogo, não fumo, bebo bem a vontade,
e moro sozinho, com minha arca,
numa quartinho bem iluminado.

Na arca tem retratos velhos e até dela,
tem uma floresta encantada - onde nunca pus os
pés, com medo de nela me encontrar!
tem um lindo pôr-de-sol - que não ouso olhar,
tem uma morna e linda lua de outono
que guardo para os dias quentes de verão.

Sou homem que prezo a minha arca,
ora prá ir, ora prá voltar.
Coisas áridas!

Mas sempre comigo ela rumoreja
dissabores e confidências
de deixar qualquer um de pé nas orelhas!.

Sou homem de duas arcas, de duas faces
uma prá bater,
outra prá chorar!

E assim levo a vida
com muitas idas
e poucas voltas,
com pouca gente ao meu lado
sem família nenhuma prá pousar.

Tenho também um grande amor
escondido na arca
mas este, meus senhores,
é coisa minha,
e de lá ninguém tira
ninguém coloca a mão:
o amor é meu
e fica no poente de minha vida
carregando sonhos e pousadas
na esperança de um dia - num dia
de milagres - ela sair de lá e dizer:

Sou sua luz,
sem vaguezas.
Vim te aguardar!

Sou sua pro resto da vida
E nunca mais sozinho ficará.

Pois certos sonhos que carrega
sob os braços,
um dia se tornam reais e alegres:

é quando a ponta do céu se une
a outra outra do céu - e o dia
renasce grandioso.

Dia do amor sem fim.

Mas da minha arca, não largo.

Sou ainda homem de duas farpas:
um prá pensar e
outra prá chorar!.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 03/05/2006
Código do texto: T149394
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel