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CHÃO DA LITERATURA E OUTRAS CANÇÕES TORTAS

Sou a alma desvairada
que reanima e recicla abandonos.
Sou o vale que recolhe águas barrentas,
seus cacos e restos
trazidos pela correnteza da vida.

No chão da literatura,
recolho tudo o que se rejeita:
vielas e becos, crianças sem pátria dos faróis,
pés descalços, sertão...
e nossos heróis derrotados:
Che Guevara, Conselheiro, Prestes, Lampião...

Aparo todas as sobras,
lustro com kaol
as palavras malditas,
dos poemas esquecidos,
dos livros que a crítica ignora,
que o mercado rejeita
e o intelectual perjura.

Sou o catador de ferro-velho
que retira vida do limbo,
do quase nada.
Sou do território dos excluídos,
periferia, marginália, Brasilândia...

Canto histórias esquecidas,
sons quietos dos que foram calados.
São matérias-vida que recolho
no chão-abrigo dos indigentes,
dos asilados, migrantes,
dos loucos e suas mazelas.

Acolho ultrajes à arte imaculada,
às escolas e panelas literárias.
Exalto os músicos da noite
e os poetas de verso torto e pé quebrado.
Sou a palavra rejeitada
caída da mesa farta dos poetas letrados.

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POUCO CONHECIMENTO

Noto que Deus me deu a vontade
e a necessidade de contar histórias,
de traçar enredos e falar de desejos.
Deu-me a palavra
e o desconhecido para desvendar.
Justifico assim o meu delírio
de ir além do que aprendi nos livros.
Vejo com clarividência
que onde nasce a luz nasce a alma
e o universo crepita, cintila,
criando vida na água.
A natureza procria na dança dos planetas,
o oceano balança, faz o contrapeso.
Na Terra tudo é único e se multiplica
e o silêncio só existe à distância,
de perto tudo são explosões nucleares,
mistério enquanto se desconhece.

Estrelas acendem brilhos no cosmos
e na terra o homem busca,
no infindo fragmento, a fonte atômica.
Insiste em produzir energia sem vida
contra meu desejo anticientífico, humano, animal,
de sobreviver à hecatombe total.
O homem é só uma doença do planeta,
um vírus letal em guerra constante,
e eu um mero pensador sem instrução,
sem revelação divina
a me imiscuir por caminhos
de onde já nem sei sair.
Sou bicho acuado no concreto,
na encruzilhada da vida, no meio de homens e morte
tentando sobreviver.

Sou o cientista sem instrução,
alquimista virtual,
mesclando cores, odores e palavras,
trotando no cavalo louco do pensamento.
Sou como o vento balançando a mata,
derrubando ninhos,
provocando revoadas e debandes.
Mas logo me acalmo
e volto para o assento comum dos mortais.
Já não quero viajar pelas sendas estreitas e frestas da realidade
Inventar um mundo é fácil;
o duro é desmanchar a rocha
e fazê-lo escorrer como lava de vulcão.

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PALAVRAS SÃO MAGIAS

Fico bolinando palavras como se fossem peças
com as quais se conserta o mundo.
Fico demolindo cidades e grades, desencadeando revoltas,
revisitando heróis idos e revoluções remotas.

Jogo minha rede no mar dos ensejos,
na ânsia de pescar liberdade,
mas prendo na minha teia de versos somente anseios,
peitos pulsantes, silentes andarilhos,
crianças magras dos faróis.

Com eles crio enredos, monto exércitos,
tomo de assalto os palácios, o governo.
Com eles comando a massa na praça
microfone na mão, alarde, revolução...

Noutro dia me perco, me enrosco em versos tristes.
Apático, anônimo, lúcido, me aquieto.
Estrategicamente recuo. Dou-me conta do frágil,
do inconsistente. Temo o poder, o veto, o crítico literário.

A tudo engaveto: meus sonhos, meus dons, meus versos.
Palavras...
Guardo tudo num universo paralelo
e sigo, à margem, pagando o preço dos anônimos,
vendo glórias alheias no outdoor da praça.

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LAVAR A CIDADE

Eu tenho água pra lavar a cidade
e muita mágoa pra fazer o enxágüe.
Tenho vento suficiente pra varrer o mundo,
sacudir as árvores e destelhar as casas.

Eu tenho dor, eu tenho calo, eu tenho o pé inchado
de tanto correr atrás de estrago pra adiantar o lado.
Eu faço samba, eu danço e canto sem ser o cantor.
Eu cumpro a sina e descreio do destino. Sou desatino.

Eu ando no meio fio, eu teço a rede e pesco o peixe.
Eu faço o feixe e eu mesmo o quebro.
Eu me arreio e me cavalgo. Sou notívago e acordo cedo.

Eu colho o que não plantei e esqueço o que teci.
Assim vou levando o fardo, rompendo cerca.
Eu sou o arco e o alvo, da cidade a dor.
Do chão em que fui plantado parti.
Eu sou daqui, mas estou chegando agora.

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FRANCISCANO

Trago notícias várias
de jornais e da rua.
A cada noite, antes do sono,
ponho-as à mesa,
entre restos de comida e cascas de frutas.

Delicio-me,
entre um trago e outro,
comemoro erros e falhas alheias,
ideologias e outras mentiras dispersas.

Como quem conspira na calada da noite
apóio os errados por estarem certos também.
Rio, entredentes,
farto-me de orgulho próprio
e entre meus cacos e restos,
pobre como um franciscano,
repúdio a miséria e o excesso de possuir.

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EXPLODA

Não quero nada aprovar.
Provar a vida me basta.
Queria quando, queria muito
entender o que,
onde está o sentido de existir.
 
Não vou vencer,
não quero derrotar,
não é preciso,
não é exato,
ninguém precisa perder
para o outro ganhar.

Vou me doar ao dia.
Tranqüilo.
Ser certo é bonito
Levantar cedo, ceder,
ser uno, coeso, inteiro.
É ótimo ser bom,
ter o dom da claridade.

Não vou conquistar o mundo,
que ele me espere com seus dragões,
que exploda seus vulcões,
que rompam os terremotos,
que soltem seus leões,
um a cada manhã.

Não quero nada provar,
ser menos ou mais,
ou ser 100% racional.
Deus, bastante em si,
distribui-se a todos
a quem crê ou descrê.
Pra mim me basta
o sol, a chuva,
o perdão pelas heresias
e o pão. E se não tiver
que se busque onde tiver estocado
E se mude tudo.

Não sou livro aberto,
estrada reta.
Torto, me busco e me alcanço na curva.
Para o ocidente me oriento,
senhor de mim não me conheço
e a cada dia me revelo.
Eu sou o que é e será
segundo após,
segundo penso.

Planto se chover.
Colho de der.
Meus pensamentos são nada,
são só ações adolescentes,
inconseqüentemente me exploro a exaustão.
Colocar um ponto final é duro,
mas é preciso e necessário.

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DESVARIO

Tenho uma ânsia forte a me roer por dentro,
um furacão querendo esvair-se em lava,
fogo e fumaça,
a cobrir a velha terra devastada e seus cacos,
derrotas, lutas inglórias,
ressacas e sonhos não realizados.
Queima-me a paixão pela arte
e como quem martela ferro em sua bigorna
eu choro em letras,
imagens e sentimentos que não se agüentam estanques.

Romper o dique que lave e leve a alma além,
numa revolução impossível, improvável,
sem sangue.
Mas toda renovação tem sangue e seiva derramados,
levando abaixo
floresta e jardins plantados,
ordens e castas estabelecidas,
curando e criando novas feridas.

Mas quero!
De dentro vem o grito,
um ímpeto de romper o muro que me barra,
de explodir em fogo e lava,
em corações despetalados,
em rosas deslumbrantes
brotado do solo seco da paixão perdida.

Há uma vontade de ver o céu se abrir
e se romper os sete selos prometidos pelo profeta.
Ver chegar a carruagem e despencar a fúria divina.
Há um lado que cala, compactua.
Outro que grita:
Merecemos a revolta e o revôo de Deus sobre nossas cabeças
cortando laços e desvarios.
Um basta, um juízo, um norte, um vento forte.

Tenho tudo isto assim
em redemoinho contínuo querendo sair furacão por ai
devastando telhados,
arrebentando fios e tensões.
Há um oceano de espera,
uma água cristalina aprisionada,
uma ânsia que me assalta e inquieta.

O que me resta?
Poeta.
Inundar a todos com estas imagens,
sons mudos e harmonias sem ritmos.
Com a música desconexa que a cidade inspira
e o silêncio distante.
De perto tudo é gênese e fim.

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DECLARO-ME POETA

Apesar das adversidades
e das condições contrárias
declaro-me poeta.
Por insistência.
Por necessidade
e por desvario.

À margem,
semi-analfabeto.
Ora discreto, pacato,
ora panfletário.
Escárnio.
Sem dentes,
sedento,
sem livro,
Fora das panelas literárias,
sem mídia, sem patrocínio.
Nem conheço Caetano,
nem Gil.
Mesmo assim me declaro poeta.
Apesar da idade,
das contrariedades,
das necessidades primárias
gritarem antes.
Deus me vala.
Estou nessa
e declaro à praça,
a quem possa
a quem queira ou não.
Declaro-me Poeta.

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ARQUIVO

Trago comigo versos antigos
e velhos amigos.
Gritos, risos e o peito partido.

Tenho no arquivo, guardados,
canções, poemas...
água para criar meu próprio rio.

Sigo traçando meu enredo.
Medo e degredo.
Vou pelo trilho da lua no brilho do olhar.

Rompo meu próprio casulo,
desfaço a morada...
O ovo é só um pequeno ninho.

Enveredo pelo caminho.
Reciclo-me. Recrio.
O barco que navego sou eu mesmo.

Rompo silêncio, madrugadas.
Minha estrada
vai de encontro ao bom da vida.

Quem sou, que não me alcanço?
Que peso carrego?
Séculos que me desfaço
para alçar vôo
e vou pela estrada.

Levo comigo versos antigos,
canções prontas,
palavras de ponta,
palavras-sementes
que espalho pelo caminho.

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AREIA DA PRAIA

Estou farto de juntar idéias tensas,
trancá-las em rimas e formatos
e ver palavras outras, leves,
sem compromissos, omissas, à toa,
soltas ao vento...

Estou cansado de juntar alimento
para todo o ano
e deixar que a primavera e o verão
se percam em mar, sol e flores,
enquanto eu bato prego
e fecho trancas do meu silo.

Estou farto de querer ser voz e razão
e defender ideais,
como o faminto defende um velho pão.
Estou saindo de cena,
fechando pra balanço.
Hoje, estou seco, sem eco.
Estou farto de fome,
de escrever na areia da praia...

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A ME REVELAR

Vivo de inventar situações e de simular a vida,
num recriar contínuo de tudo ao meu gosto e gesto,
Talvez me falte coragem para a verdade,
ou talvez me sobre música por dentro.

Inteiramente falso e real é o mundo que crio
e que escoro com palavras e sons.
Participo anônimo da conversa surda do mundo.
Jogo meus confetes por aqui e ali,
adentro carnavais alheios e espio a farra.

Molho-me na água de rios passados.
Hoje sou outro homem, diferente de ontem,
e acordo cheio de sinais, marcas e estigmas,
lembranças que me instigam e me dão saudades
de um tempo remoto que não vivi.
Não sei se sou farto de sonhos e esperança
ou se ando entrando de fato na vida.

Sinto-me meio mico de circo - me revelo.
Meio leão dourado - me escondo.
Quero a glória, mas não dou desconto a ninguém.
Sou um oco de incertezas. Impreciso
quero determinar caminhos,
impor metas, recolher os frutos que plantei.

Quem eu acredito que sou é diferente daquele que se revela.
Minha vida externa - monótona,  pacífica...
Minha vida interna - uma guerra infinda, uma novela, trama e mistério.
Inverter, botar tudo pra fora é uma meta,
uma ânsia eterna que esbarra na velha previdência.
Sinal de alerta!
Está não é uma possibilidade improvável.
De pára-quedas nas costas é sempre previdente.

Fico me definindo para esconder a essência
ou para revelar a escondida demência,
que no escuro se revela e quer a luz.
Saltar de banda, dançar o frevo, viver um fado...
Talvez, no máximo, fazer uma canção popular.

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PULEI DO SÉCULO

Perdi minha paciência
com os séculos passados,
arcados sobre si mesmos
e que negam os dias que rompem diferentes.

Perdi minha paciência.
Não há espaço para novos dados no teclado aramaico.
A mente do século está martirizada,
mortificada em vida
e martela inglórias e proselitismos idos.

Perdi minha paciência.
Não me peça mais parcimônia.
Não consigo mais seguir reto.
Estou caminhando torto no fio da navalha.

Perdi minha paciência.
Estou agora fora do contexto, à margem.
Chega de heróis derrotados,
mártires, esforços, forças jogadas fora -
enterrados vivos pelos retrógrados.
Meu peito clama vitórias, pódio e alegria.

Perdi minha paciência
com os arquétipos todos de conduta e postura,
que somados fazem o passado vivo,
ressoando alto e falante,
botando presente tempos medievais.

Perdi minha paciência
com o século que acaba
e a mensagem não chegou aos ouvidos moucos.
Procuras continuam de pé,
mas eu estou fora deste páreo, fora do trilho.
Saio do século com aviso prévio, antes do seu fim.

Perdi minha paciência, caio do mundo agora.

NOV/2000

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SEM SOM

Estou sem som
Sem sangue,
Sem suingue.

Estou só, sem sim.
Sumido.
Assumidamente
sem sentido.

Estou sem cem,
sem centavo,
centimetricamente
miúdo.

Estou só na cidade
ácida,
cega, ébria,
molhada.

Estou sem
samba,
sem rumo,
sem rumba,
sem tango.
sem som.

Estou só.
Sóbrio
na cidade cega.

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LEMBRANDO

Sou como o índio
arrancado da mata,
um sertanejo sem caatinga,
árvore plantada
no vaso-cidade.

Cresci assim:
de fragmentos passados,
histórias, tradições idas,
Lampião e Conselheiro,
heróis negados a bala.

Atrás do pão-sustento
segui a estrada,
cresci no centro-concreto,
túneis e viadutos,
na máquina de triturar sonhos.

Em solo paulista
sou só saudade
de um tempo que não vingou.
Sou só dúvidas,
dívidas/dores/amores
e filhos no asfaltado
plantados.

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QUENTANDO O FRIO

Na vida sigo sem desígnios fortes.
Pisando firme, olhando à frente,
capturando luz e horizontes,
filtrando amarguras e auguras,
subtraindo desencontros e desencantos,
somando pássaros, flores, crianças,
multiplicando cantos, amigos,
dividindo dores, dívidas, dúvidas,
caminhando na sombra,
desviando das matilhas,
seguindo reto pelas ruas tortuosas,
buscando oásis na cidade asfalto,
voando alto, sonhando inquieto,
realizando, compondo, juntando brasa,
quentando o frio, criando filhos.

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CANÇÕES DO CHÃO

cato cacos de vida,
palavras preciosas
no chão da literatura

cato cacos humanos
e pessoas sem risos
no chão da vida

cato lírios no asfalto
e sons de aquários
no ácido da cidade

canto canções cegas
de bocas banguelas
e gritos aflitos

faço literatura de feira,
poética torta,
sem eira nem beira

canto, analfabeto,
a literatura barata,
bárbara e esquálida

trago no peito
o som preto dos becos
e a pele vermelha dos índios

sou pouco, mas sou farto,
recolho, reciclo e espalho
revolta e revôo de pássaros.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 04/05/2006
Reeditado em 21/10/2006
Código do texto: T149921

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
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