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CANÇÕES CEGAS E AFIADAS*

Minha escrita é canção cega
Ela foge da poesia exata,
Aquela  feito pérola rara e de luz própria.
É só letra solitária,
vagabunda, analfabeta, popularesca.
Minha escrita é buraco negro
que a tudo absorve,
distorce, contorce, disfarça, amalgama.
É só letra sem música, incompleta, camaleoa.
Entretanto, afiada,
é captora de vida/luz/emoções/aflições.
Plena de destino e de sentido
almeja com sua ponta certeira
abrir rasgos na névoa,
dissipar o obscuro e ser reflexiva.
Contrária a si mesma ela é torta e reta
capenga e atleta.
É um alerta e um sonífero.
É nódoa e cândida.
É quase nada: solitária, miúda, vadia.

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SEGREDO DO FLORIR

me ensine a ser determinado como você
a deixar de lado
a besta herança macho de mando
quero me somar a ti que tem o dom maior que a ciência
toda a sapiência dentro de si.

você é água doce de bica de pé de morro
rio, montanha, abismo
toda a alegria/sabedoria secreta que fascina
magia/energia/entranhas de parir
você é meu secreto, meu descoberto, meu acerto e meu incerto
me abra seu segredo
quero ter ver florir
transborde em mim
primavera
flagrância
toda exuberância yin
pra derreter aço/ferro/cimento

Vem mina da minha alegria
purifica-me faça feliz
mulher azuluz
raíz
brote de dentro de mim

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ALBÚM DE RETRATOS

Meu álbum de retratos
não guarda só feridas e dissabores
as lembranças arquivadas
são também como seus beijos em minha boca
marcados como mordidas do tempo
como o cheiro de chuva em dia quente
mas a palavra NÃO também gravou sua faca
marcou a alma, fazendo seus talhos

Minha vida não é livro raro
mas arquivo aberto e retidão de trem
todos as letras sobre a mesa
procuras e achados, amores, filhos e segredos
A limpidez das águas lava todas as feridas
não há vida sem risco
vitória sem luta
labuta leve
o resultado da paz é o perigo, amigo

Minhas vitórias precederam derrotas
Vi o mal comer sangue,
a mão forte moldar ferro, desenhar gaiolas
fundir de cimento as asas da senhora liberdade.
A boca ferina comer o pão e a terra do homem
roubar-lhe as portas e as janelas
mas não o grito e o revôo dos pássaros.
Minha geração teve que reinventar  a luz
correr perigo e espalhar sementes.

Meu álbum de retratos
é um folhetim barato
escrito de trás para frente
Enfim: um nó desfeito, um alívio no peito
um arquivo revirado
um filme da mente.

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EM TODAS A ERAS

Corre o meu sangue
na cidade
coagulando em todos os cortes/cores/dores
Forte
é parcela de todas as raças
índio, hindu, bantu, cristão e muçulmano.
É de canudos, palmares, lampião
cigano, hippie, beatinik, vagabundo

É de outra era
profeta, revolucionário, anarquista
amante, romântico, brasileiro
Corre cego, ácido, incerto
deserto
sob a pele sufi
na mata, na guerra
poeta
da civilização-metal
entre construções, concreto, aço e aflição

Corre meu sangue
na cidade
coagulando em todos os cortes/cores/dores
forte
destilando palpitações
Entre lutas brutas
Corre coeso
entre o fel/veneno
irrigando o coração
pronto a eclodir
entre a barra
o peso de cada dia
Vai assim transitório e volátil a fluir

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DESTILANDO VIDAS

Comi tirania
feito letra miúda nesta vida.
Ofuscado pelos holofotes do medo
reguei tudo na horta do segredo
no fundo do quintal.
Dancei entre serpentes:
fogo/faca/espinho.
Dormi no ninho das águia rapinas,
erva daninha renasci da ferida,
entre pedras/vidros de ponta/sabres e ruínas.
Destilei vida de infectos rios,
matei a sede na sabedoria inculta
e vivi
entre ruidosos covardes delatando sirenes.
Sangue,
semente guerrilheira que não brotou
Como um cego tateei luz
como um tauregue eu quis água
deserto eu me vi
assim que eu me criei aprendendo história nas ruas de nossos brasis

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PONTO CARDEAL

Você é minha vida,
meu café com leite,
meu pão de cada dia.
Combustível do meu ser.

Contigo eu encaro qualquer uma,
sem você sou só um resumo,
um rascunho impressionista.
Você me joga no mundo
e põe os inimigos pra correr.

Minha vida,
minha comida,
minha tarde de sol,
meu anzol,
meu engodo e meu enredo.
Lua da minha rua,
meu poema e transpiração,
minha Tarsila,
meu Movimento de 22,
biscoito fino, inspiração.

Você é meu feijão,
meu caldo verde,
minha noite calma,
bruxa e magia.
Eu sem você sou deserto,
sem nada,
a esmo por ai,
fantoche de meus medos.

Você é minha razão,
minha direção,
ponto cardeal,
meu bem, mel sal,
tempero, coração.
Meu poema de amor,
minha canção desesperada,
minha flor, meu vinho,
princesa e dama,
te quero por inteiro
na minha alma,
na minha cama,
na minha vida aflita,
fazendo fita,
criando confusão,
dançando, cantando,
mandando
nos desígnios do meu coração

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PLANTAR AMANHÃS

É preciso botar a mão na massa
e fabricar o pão da união fraterna.
Escrever no muro, nas mentes, nos medos;
meter os dedos na ferida.
Abrir a boca, o verbo, o verso e o inverso;
fazer da vida mais que rimas.
Mais abraço, contato...

Braço a braço, abrir espaço,
fazer o ninho, o berço, o lar para todos.
Do nosso mais distante amigo
ao inimigo próximo, perdão.
Como Cristo amar a unidade,
como um taoista, ver o ying e yang em tudo.
Unir cantos, em cântaros, cantar;
alargar a festa e abrir a cortina.
Botar a massa na praça, na rua
para ver o luar e o sol
e o suor ver escorrer dos rostos na dança.

O gosto da vida é ter emoção,
cruzar com gente, ver gente, olhar gente.
Dar passos em direção à ALEGRIA
abrir portas, janelas, olhares,
bocas e horizontes.
Subir aos montes, edifícios, fincar bandeiras vivas,
gente de paz, de glórias a edificar.
Fazer história, plantar amanhãs
e, em uníssono, cantar a vitória.

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PLANTADO NO ASFALTO

Ao romper-se o ciclo agrário
todos os matutos tornaram-se urbanos
pra não morrerem secos no sertão do Brasil.
Ao findar-se a tradição rural
tudo foi trocado pelo fervor dos sentidos:
rios poluídos, ruídos e dores maiores.
Fisgados por anzóis da civilização
vieram todos viver sob cerrada fuligem
na vertigem das cidades.
Saudades dos tempos idos.

Nesse universo de fragmentos ilhados,
de cimento, pedra e caos,
fui plantado por meus pais
e criado na lembrança de um outro país:
pobre, seco, latifundiário, injusto, mas musical.
Como um índio laçado na mata,
arrancado do seu solo-pátria,
fui jogado na adversidade: cidade.
Cresci assim, com saudade de um tempo perdido que não vivi.
Entre concreto, túneis e viadutos,
no centro da máquina de triturar sonhos.
Hoje coleciono dilemas
dívidas, dores e amores.
Do passado ficaram as imagem e histórias distantes:
Lampião, Conselheiro, procissões, tropeiros...
um rio seco, d’um céu azul-brasil sem nuvens,
miragem.
Saudades de um passado que se deu fim

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MEIO BIAFRA MEIO BRASIL

Nas quebradas onde eu moro
a endividada vida,
a fome farta
ainda faz vítimas fatais
e engravida crianças
de vermes e doenças esquisitas
que nos bairros de gente rica
é ficção,
coisa de tevê.

Na vila onde me escondo
os escombros são abrigo e lar,
cidades de madeira, zinco e papelão
se formam da noite para o amanhã
e logo se vê
meninos sem aparo da pátria
na margem do Brasil
correndo pelas becos,
desvalidos,
mais que filhos são gritos
de destinos doloridos,
sonhos acordados
que vieram à luz
sem chance de viver.
 
Nas quebradas donde eu moro
é assim: meio biafra meio Brasil.

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MULHER

Talvez me falta a palavra adequada
para expressar o que sinto,
para dizer o que acho.
Pra não ser banal, inábil, vazio,
digo que só você é capaz
de amainar a aridez da cidade,
melhorar o ar, preservar o que resta da mata,
tomar a rédea, salvar o mundo
do estreito conceito macho de mando.

Mulher, você é o rio da vida,
fonte, caminho e navegação;
abismo, vértice, inspiração.
Só você tem o dom,
só você é capaz da transformação;
de derreter concreto, granito,
de acalentar o aflito e cessar o lamento.
Você é o ouro, a platina, o segredo,
o nosso Monte Sião.
Só você pode dar a paz à Palestina,
multiplicar o pão e distribuir o peixe bom.
Aos pobres dar abrigo,
aos sem nada força e grito.
Acredite.

Coloco-me como aliado,
estou pronto a sacudir a poeira, amassar barro,
derrubar prateleiras arrumadas,
abrir livros esquecidos,
arejar cabeças arquivadas.
ir, mundo afora, derrubando muralhas,
conquistando espaços,
quebrando louças,
colhendo madeira para o inverno,
nadando em rios glaciais,
cortando fronteiras hostis,
enfrentando feras na arena,
sem armas, numa cruzada sã,
pela paz, por ti mulher, por todos nós.

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MILAGRE

Se tens sobre a mesa
a fartura de pão, de peixe,
o vinho no cálice, cheio,
no rosto dos filhos o riso...
Se preferir se farte
mas saiba que do resto faustoso
há seres na espreita
à cata.
Pense um pouco
em tudo, em todos,
em mil outras bocas em falta.
Reparta.

Certifique-se,
abra o livro sagrado.
Aquilo que se divide
se multiplica e não cessa de vir mais.
Faça sua parte.
Milagre.

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MEU AR

Meu amor por você é único
como a água e a humanidade,
límpido e impuro.
Ele se divide mas não perde
a unidade.

Meu amor está em todos
os poros e reflete em todo lugar.
Está na estrela mais distante
e na floresta destruída,
no carvão e no diamante;
na multidão, nos mares.
Onde tiver pulsação

Ele é um frágil grão
escondendo-se para florir,
é força e fraqueza
retida na vasilha do meu ser.
Vasa, escorre,
mas não morre.
É uma força maior,
o que há de melhor em mim pra você: meu tato, meu ar, meu olfato,
minha floresta, meu deserto e meu oásis.
Sou só sem ti: Meu ar, meu leito.
Eu te preciso para viver

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ISADORA DUCAN

Não! eu não quero esse amor
assim maternal, egoísta e restrito
Eu busco o amor puro altruísta
o amor maior sentido por Cristo e Buda
e que Lenin dispensou ao povo.

Não! eu não quero essa dança
assim contida, restrita e passiva.
Eu quero dançar com alegria atroz
terrível, louca e feroz,
nua e só diante da imensidão do mar.

Não! Eu não quero essa mulher
assim sentimental, triste e virtuosa,
que só sabe sofrer e chorar.
Eu anseio uma nova mulher,
gloriosa e do corpo mais livre;

aquela que seja o inverso do medo
afirmadora do eros e corajosa,
um autêntico espírito livre,
contestadora do miserabilismo
em todas as suas formas.

Não! Eu não quero esse mundo assim:
nutrido por mentiras reais,
por egoísmo, dinheiro e poder
e crianças dormindo nos umbrais,
sem teto, sem escola e sem amor.

Não! Eu não quero o homem como ele é,
o que vê a mulher como posse, objeto,
um litro de uísque a ser esvaziado;
aquele que, para se sentir amado,
precisa d’alma feminina com os pés atados;

aquele que fala do amor materno
como a coisa do mundo mais sagrada
mas ama apenas seus braços e pernas;
ama na mãe uma parte de si mesmo.
Da mulher só quer o corpo e a alma cativa.

Esse homem, esse mundo, esse amor...
são distorções, maldições, estreitos princípios
de um tempo de egoismo, dinheiro e teorias -
geradores da monstruosa injustiça do mundo.

Ah! O que então eu quero da vida?
- Vida, solidariedade, harmonia, liberdade,
crianças felizes, alegria nos corações,
almas generosas. Canções e dança para todos.

Sei que o que quero não é pouco
Mas nunca será pouco querer a verdade.
O sol brilha sempre.
Se não fomos nada, seremos tudo.

O texto  acima foi inspirado em Isadora Ducan; são essencialmente idéias e frases esparsas  desta dançarina e revolucionária do início deste século formatados e alinhado em versos por Célio Pires.

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LOUCO DA RUA

Eu sou o louco da rua,
o sem-teto desmemoriado
que procura nos rostos alheios
anseios perdidos.
Como o pobre sonha conforto
eu quero lucidez.
Procuro meus olhos na escuridão,
procuro meu eu em vocês.

Eu sou o louco da minha geração,
exilado dentro de mim.
Estou transbordando vazio
apatia, sangue e aflição.
Por mim abram-se as celas,
não há fera que fira mais que a fúria retida
na margem da vida

O fio da navalha,
o buraco da agulha,
são minhas medidas de trânsito.
Sou o condenado à solidão

Eu não sou só pele e só osso,
aura negra dos aflitos.
Afirmo négo e duvido,
contesto e grito calado.
Entre deus e o diabo

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HOMEM  DO CHÃO

Que se divida o pão
de acordo com a fome
e não seja o nome
o que determine a parte maior.

Que se estanque a ferida
e não se beba mais
o sangue do sofredor.
Que no prato
o fruto do labor
esteja ao alcance
de cada mão que plantou.

Que o milho, o arroz,
o feijão e o trigo
sejam o riso de todos os meninos
do campo e periferia,
onde hoje
o desprezo predomina
sob a gula do maior.

Que a história
que se constrói agora
reserve lugar ao homem do chão
pois da sua mão bendita
brotam os frutos,
o vinho e o pão;
que a sua lida
conheça também a alegria
e o prazer de viver;
que prevaleça
somente uma ideologia,
que o amor seja a cartilha,
sua força e seu saber.

Que se reparta a terra
em acres menores
pra que nela se assente gente,
pra quem nela se plante fartura
e semeie justiça pelos campos do Brasil

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CORAGEM

Estou no gueto.
Me ache.
Tenho a palavra certa.
Revolta.
Todos os sonhos,
todos os sons,
todos os dons
massacrados.
Todos os sentimentos
suprimidos
Resisto.
Todas as aspirações
esculhambadas.
Insisto.
Tenho a palavra-chave,
dedo na ferida,
enigma que se abre.

Ache-me no gueto,
se puder,
antes que o rastilho
a pólvora chegue ao palco
e ilumine a cidade.
Ileso,
piso em brasas,
danço na beira do abismo,
reuno bocas na praça
Grito.

Não há lógica,
só travas nas portas.
Procure-me no gueto.
Bata.
Tenho a palavra-chave,
Coragem

dedos pra ferir,
enigmas pra decifrar.


- Musicado por Reinaldo Scott

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ELA É GAL

Essa mulher é um bicho mau.
É uma gata no cio,
selvagem e valente,
antipuritana, libertária, radical.
Ela é o avesso do submisso
Ela é Gal.

Suas unhas pontudas,
o cabelo disforme, a boca carnuda.
Seus olhos ferinos, a voz de veludo,
afinada e atroz . Ela dá tom e o norte.
Ela é a noite e o corte.
Essa mulher é mesmo a tal.

Do corpo mais livre, moderna.
Ela ama sem areios.
Uiva como a loba na noite,
antipuritana, derrama seu leite.
Ela desfaz a festa, espanta cordeiros.
Com alegria terrível e feroz
ela destoa, encanta, aponta a nova mulher.

Ela é mesmo um bicho mau.
É uma fera no cio,
felina e valente, libertária, radical.
Ela é o avesso do submisso
Ela é Gal.

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DE CLARA AÇÃO

O tempo  é curto para resolver os problemas psicológicos gerados pela agônica solidão das cidades. Declaro, portanto, a alegria “suprema”.

Abram-se os diques do riso e da música.
Tristes, mal amados e rancorosos crônicos saiam de lado.
Corte-se totalmente a verba do Ministério da Infelicidade.
Dispensem os soldados, suas armas e medos.
Cancele a licitação da usina de fundir agonia.
Menos celas, barras de ferro e balas de canhão.
Menos câncer, aflição e Aids.
Corte o incentivo à indústria de fazer doenças.
Tudo para o Ministério das Hortaliças.
Multipliquem-se os canais de comunicação
e misturem novas estéticas ao liqüidificador cultural dos povos.

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MANCHETE

O amanhã chegou na véspera, o futuro foi ontem.
Tudo é claro, luminoso, divino:
as florestas brotaram de novo e o ar se purificou.
Os adultos brincam de roda e as crianças batem palmas.
O povo elegeu o novo.

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TODA CRIANÇA MARECE RESPEITO

A criança vadia dorme sozinha,
atirada num canto da cidade
que nada lhe dá.
Só tem como coberta
o fogo do seu sonho pra lhe esquentar.
Seu acalento é um outro destino,
diferente daquele que enfrenta:
casa, comida, família e um pequeno cão
para acariciar

O básico lhe é negado.
A vida só lhe faz cortes e atira o sal
e não há mãos para lhe curar,
somente o vento gélido
vem naquele momento lhe abraçar.
A cidade em seu lençol cinza
dorme tranqüila
Dormirá?

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CORRE SANGUE

Corre o meu sangue
na cidade,
coagulando em todos os cortes/cores/dores.
Forte,
é parcela de todas as raças:
índio, hindu, bantu, cristão e muçulmano.
É de canudos, palmares, lampião,
cigano, hippie, beatinik, vagabundo.
É de outra era,
profeta, revolucionário, anarquista,
amante, romântico, brasileiro.
Corre cego, ácido, incerto,
deserto,
sob a pele sufi,
na mata, na guerra,
poeta
da civilização-metal,
entre construções, concreto, aço e aflição.

Corre meu sangue
na cidade,
coagulando em todos os cortes/cores/dores,
forte,
destilando palpitações,
entre lutas brutas.
Corre coeso
entre o fel/veneno,
irrigando o coração,
pronto a eclodir,
entre a barra,
o peso de cada dia.
Vai assim transitório e volátil a fluir

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CLARICE LISPECTOR

Estou ouvindo de dentro de mim
o grito ancestral que ecoa.
Selvagem me sinto, me solto.
O ser intratável aflora.

Sou aquela gata no cio
que lança plangentes miados.
Criatura de instintos livres
Indomável.
Que rola e joga-se do telhado
até ferir-se no chão.

Sou bicho e criatura.
Parece que não sei quem me domina;
eletrizo-me com a lua,
vago pela noite vadia,
indelével .

Confundo-me toda,
fico exposta ao medo.
De limites já não sei,
não mais aceito ordens,
apenas encaro instintos abafados e sigo.

Sou a gata louca no cio
de imperativos instintos
que perturba sono, derruba latas
e faz arruaça nos arrabaldes
provocando ira e raiva,
fazendo mau.

Eu sou a tal indomável,
criatura viva mutante,
pulsante, loucamente lúcida.
Mulher

O texto  acima foi inspirado em Clarice Lispector e tem base em idéias e frases esparsas desta escritora brasileira, de linguagem única em nossa literatura; alinhado em versos por Célio Pires.

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CATIVEIRO BRASIL

Canto o olhar que me come
quando passo entre a fome e o salário
nos becos, cortiços, favelas e viadutos.
Nesses labirintos humanos,
onde curti-se a dor
em fogo lento.
São casos de memória que colhi,
mais injustiças que glórias,
pedaços de histórias que vi,
ouvi, senti, calei sem consentir.
São sementes que espalho agora

Canto o silêncio contido,
os gritos sufocados
e a alegria calada.
Os olhos pidões, do fundo poço,
dos que comem o duro osso
da exclusão.
Coisas estranhas, coisas de entranhas,
vísceras ao vento.

Canto o canto extremo,
da periferia sem luz,
extrato da vida, do outro lado do mundo,
da criança sem pátria dos faróis,
da cidade de papelão e fogo,
das vidas sem valor.

Canto como quem reza,
como o judeu no Egito
e o negro cativo no Brasil,
como o pássaro na gaiola.
São fatos e histórias,
sementes que espalho agora

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SE EU SOUBESSE COMPORIA UM BLUE

Se eu soubesse compor um blues
faria o blues das vielas sem saídas
e dos becos tristes,
mas eu só sei chorar e falar pouco,
com voz miúda e tristemente sem ritmo.
Mesmo assim canto
sem som, sem melodia,
os olhares que me comem
quando passo pelos becos
pelos guetos/ labirintos
favelas e vielas sem saídas

E são tantos os gritos quietos que ouço,
quantos rostos esculpidos
de tristezas e dores infindas.
Vozes sem voz
do poço fundo das injustiças,
da morte em vida.
Tantas crianças tontas de fome/cola/crack,
franzinas, nas marquises e becos tristes.

Se eu soubesse,
faria na guitarra o “Blues da Piedade”
mas não tenho tato para tanto.
Apenas inquieto
canto
sem som
sem samba, sem nada.
Denso,
cuspo como quem expele sangue vindo do coração.
Sigo quieto
tecendo esta canção cega
como se fosse um blues
para se ouvir só
em noites sem portas e estrelas,
sob o brilho das luzes escassas,
das vielas sem saídas e dos becos tristes
na cidade sem coração
deserta.

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BOBO CRIANÇA

Sou mesmo um poeta torto,
um louco a comer estrelas.

Observo atento as dores,
recolho os feridos do mundo.

Sofro como num parto,
rompo o cerco restrito.

Danço bailarino
entre frestas

Bebo esse tempo,
arestas.

O mal vento arroto,
o desespero desfaço.

Tramo entrelinhas,
fio palavras soltas.

Lavro a terra e semeio,
incendeio a noite.

Sou mesmo um poeta torto,
um bobo feito criança.

Me vejo esperança,
me surpreendo feliz.


Você acorda cedo e tranquila
faz da lida um ofício sublime.
Eu fico na cama, só no desejo
de que volte logo e me aqueça do frio.

Eu fico mais manso, mais dócil
de ver teu coração em tudo que faz.
Inteligência espiritual é isso...
Você é meu doce, meu bem, meu sal.

Você só me faz o bom, o são,
e eu te amo sem procurar resultados,
só cumpro a decisão da minh’alma,
seguindo as pegadas do coração.

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DEPENDENTE DE VOCÊ

Me concentro em você e posso voar,
asas que o seu amor me doa.
Sou pássaro...
Me fortaleço em você
e sereno pouso.

Você é todo meu desejo, ensejo.
Minha magia secreta, perfeitamente exata.
É fluída, inteligente e lúcida,
verdadeiramente intuição e ação.

Não me abandone nunca no mundo,
no frio da indiferença e do desamor,
pois se ficar sem você me petrifico,
naufrago no mundo frio das plantas e pedras.

Volte logo pra mim, pro nosso abrigo,
antes que eu me perca em labirintos
e caia na teia dos mil enredos.
Quero você presente.
Volte pro aconchego. Sou dependente de ti.

Pra Zabelê
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1.
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8.
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10.
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Insensível a Revolução da Informática e às realidades virtuais, o poeta observa clarões na noite periférica.
É bala e crack quebrando vidas ao meio.
Demasiadamente humano ele delira e chora.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 05/05/2006
Reeditado em 21/10/2006
Código do texto: T150850

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Célio Pires de Araujo). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
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