Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Madeira Velha

Se me fosse dado agora a pedir
Já longe e esquecido,
Pediria de bom grado e apetite,
Um tempo qualquer em
Mil novecentos e tanto.

Se me fosse dado a pedir
Chamaria por Maria do Encanto.
Mas qual!
Não mais de asilo vivem elas.

Se me fosse dado a pedir:
Volto para mil novecentos
E tanto.E Pronto!

Ela, pêssega, como uma
Guerreira indomável; eu frontal
Como uma árvore meio bêbado,
Meio trôpego.

Os dois de meia bandeira.
Mas lá se vão mais de cem.
Mais de cem anos.
Cem dores,
Cem homens!


Já sou sombra do vestido
Dela, e só bebo vinho
Em taça branda, enquanto
Ela veste azul e branco
Como a melhor das rainhas.

Na sombra, cintila com um cordão
De ouro
Um cetro de marfim
Rodeando a cabeça branda.

Mas, isso, já sem dono,
Bateu por lá,
Nas bandas de mil e
Novecentos.

Ela nasceu no berço torto,
Num casarão sem dono.

Eu aprendi a ser pedra coral
Porque raros faziam de
Mim a sua fome.

Ah! Devoradores de amor!
Danço de macabro,
Enquanto corro
Pra roda que balança.

E corro.
Há cem anos, corro.

Já sou coiote manco e
Homem sem dono.

Meu bonde se aprumou
E de longe bandeou;
Meu caubói das sextas-feiras
Pendurou o coldre e como
A pólvora, se tornou seco.

Não me fazem mais colo
Porque dóem as costelas
De toda alma de tribo.

São cem tribos,
Cem homens
E uma mulher,
cortada por crianças.


E lá vou eu, de
Boa linhaça, rude
E grande estátua viva,
Levar um pouco
De flores
Para aquela de boa linhaça,
Mas que agora, aléu!Portas
Não abrem mais,
Virou estátua de bocejo.

Mas lá vou eu
Levar um pouco de
Flores,
Meio escondido,
Meio valentão,

Ser luz de coiote
Para lá de armadura
Que dorme preguiçosa
Num belo e vasto caixão
De cedro.-Madeira pura
trabalhada por hábeis
e mágicos homens,
que se postam à esquerda
de quem entra pela direita.

Acendo uma vela e dou bom-dia.
Meu caubói morreu.
Sessão das três virou seis.
E bato e bato
Na porta do tempo
De mil nocentos e tanto
Que já não abre mais.

Mas qual! Paciência de santo,
Me levam pro quarto do lobo
E dizem: dorme, dorme velho
Você não é mais violino
E nem chega à seda.

Dança, mas
Dorme!
Sonha!
Mas vê se também dá
um jeito e
também morre!

De madeira velha
Aquele céu
está cheio.

Dança,
mas vê se morre.

Mil novecentos e
tanto
morreu na
esquina do
trás-ontem-ontem!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 15/05/2006
Código do texto: T156336
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
2147 textos (26786 leituras)
1 e-livros (125 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 19:25)
José Kappel