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Entre a Sombra e a Dúvida

Histórias há - as que mais amedrontam
são do além;
As histórias da vida de cada dia
são apenas sombreiras do tempo
que passou.

Sou homem feito
e pronto para enfrentá-las.

Sou homem também, e veja só,
fora-da-lei.

Meu espírito se desgarrou
e voou prá longe
lá na pequena cidade de
Cicacota - que fica
na divisa entre a dúvida,
as sombras,
as história
e o medo.

Sou homem feito, e
isso já é meio desgarrável
de qualquer sentido peculiar!

Tenho poucas histórias
prá contar.
Só me disseram na infância:
cuidado com as coisas do além.

E hoje sou cuidadoso com todas
as coisas. Medroso de dar dó.
Medo!
Medo de dizer, de entrar ou sair
Medo do verão ou do inverno.

Medo até de dizer.

Pois, se me falam de lá:
se acautele com as sombras.

E se dizem isso
é porque ela existe dentro
de cada um.

Não há um canto sagrado para os sentidos!

Tinha medo de meu avô e sua amante.

Tinha medo dos presentes que ganhava dele
que, sabia, eram dela.

Ela, sábia, me conquistou e dois dias
depois morreu de agonia apressada.

Meu avô ficou só, sem mulher
e sem amante;
e eu, cá, a pensar:
acabaram-se os presentes!

Pois, de verdade, avós não sabem
comprar presentes: dão centavos
que a gente gasta dando pros outros.

Nem pro circo dá prá ir.

Por isso, digo, de alma encurvada:
medo há!

E foi no dia que meu avô morreu de
solidão que fui a seu enterro.

Levei um pacote de balas,
um de amendoim,
um estilingue
e um terno preto
que em engolia todo.

E via lá eu - meu avô adormecido
indeciso e apático
enfurnado no além.

Depois daquele dia - nunca mais
ganhei nada.

E como não acredito no além,
sou forçado a dizer que um dia,
ao levantar ouriço, e homem grande,
encontrei ao lado do meu travesseiro
um pacote de pipocas !

E digo, amedrontado
pois se não existe nada, mais nada,
além do outro lado
do mundo,
sei que existe meu avô e sua amante
ainda tecendo, com amor armadilhas
de prata para este conosco.


E agora vivo assim,
medo tenho de sobrar;
mas Cicacota existe tão esquecida
como meu avô.

Mas brinquedos,nunca mais ganhei.

Não sou alvará de ganância,
mas que o outro lado existe
isso lá existe.

Mas são coisas de meu espírito
que hoje vasculha o medo
que vem atrás com uma sacola
de pipocas, um avô e uma mulher amante!

Reunir isso tudo em mim, dá medo,muito medo, até de dizer!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 16/05/2006
Código do texto: T156959
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel