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O GOSTO DA POESIA

Poesia tem gosto.
Exemplo:
Descasque o homem moderno, como a um abacaxi,
Lasca por lasca,
Dentro dele o gosto da dúvida, acentuado,
Dominará outros sabores.

Dúvidas sobre o quê?

Sobre o que fazer com o arsenal atômico,
Como gastar seus dias, enfiado em livros
Ou tomando banho em riachos
Como quando era criança,
Encharcado de utopias.

Um gosto que sempre aparecerá
É o do momento que ficou logo ali atrás:

Deveria ter mandado aquela carta para o Papa?
Deveria ter mandado o fax para o presídio?
Deveria ter comprado material mais barato
E ter feito uma pintura oca?

Os olhos se voltam para o quintal
E lá está a jaboticabeira...

As unhas crescem depressa e é preciso cortá-las, rente...
O mundo precisa de mais docilidade e menos obuzes...

O valor do homem está no gosto
Que ele tem pelo gosto de poesia,
Como devora as palavras, como devolve,
Como crava seus sonhos na pele do último céu,
O que pede à Deus quando está só de universos...

Resta sempre um gosto de Arcanjo no fundo da melancia,
O pão repartido ri seus miolos para a boca sem fundo,
O gosto da poesia, inserido na cópula celestial,
Respinga seu orvalho sobre o rosto do homem
Fugindo da cidade sitiada...

Olhe para a T.V.:

A caixa preta de emoções perdidas,
Cornucópia oceânica do sangue derramado na taça de vinho,
A poesia elétrica choca os choques e reproduz fonemas...

Dança o homem sobre o tablado dos mamilos da deusa nua...
O que é o arame senão o gosto da poesia
Pelo desequilíbrio multifuncional?

Estenda sua rede, Parsifal;
Estenda suas teias, ò criminoso vulgar do século vinte e um;
E um e mais um e outro,
De todos os séculos roubam o gosto da poesia;
O homem não espera a gôndola e nem canta a ária;
Sempre que pode o homem ama.
Sempre que pode.
E dele, como um perfume que o envolve,
Aroma de versos e sutis sonetos
Indicam que seus olhos procuram
O ninho de sons sob avencas...

E por fim ao papel com suas letras cravadas
É o destino da poesia.
A roda de anjos experimenta os vários sabores,
Eis a angústia da poesia:

São perguntas ao homem sobre seus temores e tempestades,
Nem o que ocorrerá no sábado à tarde, antes do fim do poema.
A máquina vai destruí-lo, vai recriar outro homem,
O enviará até a última estrela,
Confiará que voltará com mensagens supernovas,
Um pote de sabores deverá trazer
Para a primeira ceia do novo sonho.

Eis o gosto da última poesia.

Cada corpúsculo do pensamento habitará outro pensamento.
E assim, sucessivamente, a roda engendrada para corroer
seus dentes haverá de morder o pedaço
Que ainda resta da poesia,
O seu, o meu, o nosso pedaço,
Com facas sujas de pólens,
Com alicates de nuvens,
Com arranha-céus
Encarcerados
Dentro
Do
Vento.

Sem gosto, nada.
Com gosto de poesia, tudo.

Preto Moreno



Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 19/05/2006
Reeditado em 23/05/2006
Código do texto: T159038

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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