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O Trigo e o Inverno

Espero que fique para o inverno,
não que isso tenha alguma
coisa a me
dizer.

Piedade roçam
as igrejas!

Mas, por enquanto, o tempo é tépido,
o sol e as luzes são de duas noites.

Por enquanto, ainda lateja um
pouco de mim - pelas vagas
esperanças da terra.

Nesse faz de conta...
faz de conta, é
que espero que fique para o
inverno.

A pátria já deixei pra lá,
e. assim, seus homens e
seus aventureiros.

Mas a cada dia subo um degrau,
um dia no outono,
outro na primavera.

Mas, outro inverno,
já não cabe mais por inteiro.

Ir até ao topo,
alcançar soberbo o bojo
e gritar
no meio da escada:
no inverno,não!

-Lá nem os
trigais suportam mais!

A vida é lá engraçada:
mata seus mortos,
reaviva seus vivos,
faz festa todo dia
e depois,
da noite para o dia, esmaece,
como uma lua pálida.

E lá vai o sentimento,
a meia-calça,
a chinela,
o cachecol,
a vista d'água,
o pai, o avô,
o tio, sobrinho e meio
a moça da roça,
que trouxe em seu coração
seus engenhos de milagres.

Agora, que me perdoem,
os mais velhos,
os já de idade,
e também os mais novos,
os de nova idade,
já é hora de contar
meio-tempo
e cantar ao bravo sol
para que não chegue o inverno pálido.

Pois lá vai você, vai,
vestida de branco,
carregando um passado
que só eu sei caminhar.

A vida dá duas voltas
e meia.
Na parada você fica,
rútila, em mãos alheias.

E vão dizer, somente dizer,
lá foi a mulher de seu tempo
carregado por homens desconhecidos,
de chapéu de meia-aba nas mãos,
rezando falso, para que
tudo aquilo acabe.

Não tem nada não.
Agora é você
amanhã sou eu!

Nos trigais
já não resplande mais o
sol, mas caçam
cervos inofensivos.

Mas, que no grande
largo de folhas cinzas,
e esvoançantes,
pelo vento úmido,
caia uma gota apenas
de seu inverno
em minhas mãos,
para que possa
orvalhar seu rosto e
e respaldar os
velhos campos de
trigo.

Piedade - não tenho,
já sou grande,
homem feito.

Mas que, lá no fundo,
um dia, quando
todos passarem,
como roça o vento,
você venha e me diga:

Um dia foi assim,
Um dia fui amor.

Mas o tempo serrano
tratou de levar
vantagem.

E separou duas folhas,
quase mortas,
eu e você,
para levar às estrelas
onde só passa o branco
inverno.

E são, de tão longe,
que mal a gente vê tal
terra!

E numa
certa manhã de
inverno passageiro
você e seu passado,
venha a mim,
tratar dos trigais e,
diga,sincera:

Onde vive o homem,
de tanto amor,
que mora agora
bem longe da gente?

Junto ao trigais,
em pleno inverno
já sem cor !
José Kappel
Enviado por José Kappel em 22/05/2006
Código do texto: T160509
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel