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ESCREVO COMO QUEM GRITA

Rascunho com sangue na parede da caverna
Verso com a pressa de quem escreve no muro
Canto como quem bate prego
Como quem rima na praia por um qualquer troco

Não há tempo pra decifrar enigmas
descobrir significados
hermeticamente trancados em hierogrifos
em escritos do Mar Morto
Escrevo como grito estes panfletos primais

Escrevo como arma
com o gatilho puxado
e atiro pra todo lado
mesmo sem técnica e primor e sem beneplácito doutor
como quem não pode
sem licença
expor
na sua barraca de camelô
seu cordel
sua rima sem prumo/ seu medo/ sua dor

Escrevo como grito
Traço destino sem rascunho
murmuro em alto falantes
rebelo como um sem-guarida
nau desgarrada
me lanço da torre dos preconceitos
totens do dinheiro
me incendeio como aceno
e queimo-me inteiro

Palavras duras e quedas livres/ Grito
Descrevo/ crivo
páginas da vida endividada
retiro a seiva que destilo
letras-vida sem censura e mensura oficial
Dura é a trama que descrevo
do gueto revelo
outro som outro sol
onde o nó se faz com dor/ desprezo/ temor

Escrevo aos gritos
boto a boca no berrante
panfleto
com lavras próprias
com pá de dores
com lágrimas
com frases de paz e degredo
com raiva e fogo
com dor e horrores do gueto

Escrevo como rasgos
como acenos afogados
como gado no matadouro
vendo navios indo com ouro roubado
levado além-mar
olho aceso
peito batuque
muque feito

Escrevo como o escravo acorrentado pela mão pelo pé
escrevo por dentro
sem pena/ tinta/ caneta
sem pena dos feitores
sob o açoite
à noite
até que não chegue dia sigo na noite sigo gritando letras e dores/
revolta/ rebeldia/ coragem
à margem do oceano
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 22/05/2006
Reeditado em 22/05/2006
Código do texto: T160569

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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