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AO LONGE ... !


Às vezes acontece
aventurar-me, incauto,
no dúbio gesto
de abrir uma janela.

Avassalador
o breu da noite, ou antes,
a vista a omitir-se,
o olhar toldado,
a minha cegueira
ou um qualquer véu
de penumbras
do não querer mais
a luz das coisas
que passam
para que chegue o dia.

Pressinto-lhe
a sua rudeza lúcida;
inspira-me a mágoa
por não se espraiar
pelo todo diurno
o sabor feminino
de cada manhã.

Talvez, no fundo,
não importe
ou seja indiferente
como as nuvens
que hão-de correr,
frívolas,
ao longo do horizonte
e tão casualmente,
como que a curtir
na imensa amplitude
daquele faz de conta
de carrossel.

Algures, ao longe
e mais que longe
há-de revolver-se
o contrapeso do rigor
em campos lavrados
pelas mãos agrestes
do camponês.

Além, na lonjura do costume,
sei que se perfilam
cercaduras mais lógicas
que ecológicas,
talhadas e facetadas em pinho
como por tesoura de costura.

Bem ao longe
mesmo muito, muito longe,
na clausura bonitinha
dos canteiros de um jardim
as flores fresquíssimas
e disciplinadas
parecem entretidas
a denunciar as ervas daninhas
às autoridades.

Ao longe,
na ténue distância
do que existe
à flor da pele
de qualquer horizonte,
enjeito-me desfocado,
fecho os olhos
numa réstia de noite,
adormeço com ela
e ouço a madrugada
espreguiçar-se
...mansa.
Luis Melo
Enviado por Luis Melo em 23/05/2006
Reeditado em 23/05/2006
Código do texto: T161337
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Sobre o autor
Luis Melo
Portugal, 59 anos
64 textos (2257 leituras)
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Luis Melo