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Angústia de Dois Dias

A primeira vista não sei se dá certo. Pode ser impressão desalmada; pode ser angústia embutida;pode ser aprendizado de criança. Mas à primeira vista, parece que o mundo de cima ficou prá baixo. Um roda-gigante que não descansa nem prá olear.

Foi tudo tão repente que até os dengos dos céus se assustaram com tamanha foracidade.

Aleluia, pois já vira nobre sem reino.

Mais de torto fica branco. De tenaz, virou fraco.De anseio, morreu em paz. Parte do pai, meia culpa da mãe!

Mas que amor dizimado se abateu? Uma hora é sim,outra não.Se faz futuro,não sei. Mas está bem no presente.Toda hora o relógio bate
enloquecido;
uma hora é não,
outra, muito bem, é sim.

Ninguém é de ferro. Engomado ficou eu. Tomei chá da cinco vendo o mar e o pôr-do-sol.

Lá cais abortavam navios e eu sem par.Já não alcanço qualquer coisa. E não me faço de rogado.Vou à nado,se precisar.

Se é a ilha dos amores eternos, tudo morre na próxima hora. Se tem minutos, eles vão juntos. Bater todo mundo bate. Chorar que é difícil.

Piso fundo prá esquecer. Afinal neste crime de espíritos desvariados não há culpados.

Vou o mais longe que posso. Se não vou, afundo.E de vez vou ao lodo de argila, como peixe largo.

Mas há paciência. E não existe por acaso. O acaso não existe só em filmes de John Wayne.Se sentiu, sentiu devagar e mostrando que a água se transforma em vinho e dela bebe quem quiser.Água e vinho se misturam numa tom só e ganha quem for mais forte de cor.

Agora dou dois. Um chora sozinho. Outro chora comigo. Agora me divido em partes. A primeira morreu, a segunda se perdeu.O rei faliu com estardalhaço e a rainha, vivaz, pulou prá outro reino!

Mas que laço eu fiz? Depressa fui ao longe,descobri ouro e perdi todas as pepitas por não saber ser rico. Maldade das coisas.Não sei ser rico. Só sei ser em vão.

Já não entendo minhas coisas. São todas atravessadas e sem sentido.Um trem expresso me atravessa os sentidos todos os dias. E marcas deixa,pois só sou espírito não sou e a dor rebate na carne.

Pois espírito também é gente de chorar.

E agora ficou pior. O que era um caso, virou Picasso.Coisa difícil, quase um desastre. O que era um campo de flores, virou charco.E quem afunda sou eu; você só vê. E se me vê, se angústia.

Que faço? Colho meia-dúzia de rosas e mando prá ela. E digo bem no seu ouvido de cetim: você é meu amor. Desculpe se faço assim. De lado não nasci.Em pé não consigo ficar. Deitado já estou rigoroso e inerte, como pérolas em festa. Dia e noite , sem parar!

Mas amar, eu sei lá, amar eu sei demais; mas perder também sei.Moedas de ouro são apenas solucões, com data e agenda, marcadas para ir e vir ao caminho dos olhos azuis crismados por minha avó.

O que faço? Compro meia-dúzia de pétalas de rosas e mando prá ela? Ou viro flor no espaço e me torno anseio das abelhas vicejantes?

Fica no quarto e fica lembrando. Um dia, um dia...quando ninguém esperar tudo vai surgir novamente, sem meias-distâncias, sem entrevero - um parque de milagres,cheio de luzes, entre a cor de suas mãos, a bondade de seu coração e rever a vida dos esplêndidos que você irradia.

Até, até logo. Ficar em não fico. Só de
longe vou lembrar:
Lá está a passageira de dois trens: o que levou, e o outro que não trouxe mais.

Pois tudo que é bom e tem calor foge de mim e corre prá você!


* Estou cascado e cansado e, de mim, fazem parte somente correntes de ouro que me prendem ao tombadilho da vida.Se o desastre vem, ele vem com arte.

Se vai, vai de pé, com orgulho e cheio de perdão. Mas aos céus eu peço, traga, por minutos minhas coisas que se foram.

Quero vê-los e sentí-los como um poeta sem pátria que deixa escorrer por suas mãos doloridas o milagre da vida e o esplendor das pessoas.

Senão,eixa eu ir, voar como os pássaros e, prantear lá de cima entre dois espaços: o de cima onde agora vivem e o de baixo onde quero morrer!

José Kappel
Enviado por José Kappel em 24/05/2006
Código do texto: T161788
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel