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O CÃO

Me perguntou hoje de manhã: Por quê te amo?
Tenho te visto e observado, te lambido,
Nem assim fui notado e nem inserido
Em nenhum dos teus poemas.

Escreves sobre a areia, o tempo,
Sobre o vento que leva tuas idéias
Para bem longe daqui...

Tens escrito com tanta fúria e amor
Que penso que o instinto te persegue
Enquanto eu o tenho.

Quando estás no banho, o teu canto
Me chega com animalesca ternura,
Uivo para te acompanhar pois te sinto tão só,
O nosso dueto atravessa a expansão das estrelas
E fugimos, como cão e dono,
Para a constelação mais distante,
Mesmo que me diga tuas heliocêntricas conjecturas.

Por quê te amo?
Por quê sofro com tuas contas a pagar,
Seu medo absurdo que me assusta
Mais do que meus dentes
Com vontade de te morder?

Cavo no quintal à procura de ouro,
Ouro que te dará a liberdade para fugir
Das tempestades e, me punes com um osso cru,
Porque deves pensar que cavo a tua cova.

Se te foi dado o amor para amar todas as coisas,
A mim foi dado amá-lo sobre todas as coisas,
Mesmo que me atraia a melhor cadela,
Mesmo que assoviem melodias doces,
Mesmo que o portão esteja aberto
E as ruas, desertas.

Tenho visto árvores e pontes, crianças e esquinas,
E tenho vivido como qual quer o homem.
Se bem sabes, tenho a língua por motivo de afeição,
Enquanto tens a língua por motivo de domínio.

Nada visto pois tenho o meu couro puro
Enquanto tens que trocar de máscara
Todos os dias.

Mesmo assim me chamas para dormir ao lado de sua cama
E me dá afagos no esquecimento da noite,
Insonia e perdas.

Queria eu ser um homem
Com o que aprendi não sendo um,
Queria eu estar em tua fome
E alimentá-lo de vácuos e sonhos
Que não possuo,
Pois estão todos em ti.

Sou um cão e estou sob o domínio das eras...
Sabe lá o que fiz para estar aqui, assim...
Enquanto abanas a mão, eu, o rabo,
Enquanto te coças, me mordo,
Enquanto meditas sobre filosofia,
Te fito...

Seguimos nossos destinos,
Eu, mais homem do que cão,
Tu, mais cão do que homem,
Nós dois, felizes pelo que não possuímos,
A certeza de sermos igualmente diferentes,
Distantes, perplexos,
À um passo da verdade.

Quando me dá banho
Sinto que lavas a alma.


Preto Moreno





































Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 24/05/2006
Código do texto: T162059

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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