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Celas de Veludos

Tenho que me levar para algum lugar - que não seja nenhum;
tenho que me livrar das anchovas e dos permeios de cristal.Isso eu tenho!

Se sou um encanto, que nele augusto vivo, então se faça vida.

Mas que vida?
Qual permeio?
Que carochinha de chorar!

Tudo passa rapidamente em faíscas de luz
e mal tenho umaa lanterna prá me iluminar,
prá acender o que tenho dentro,
para afoguear o que sinto
em meras e escorregadias ousadias e lástimas de lágrimas !

Falam muito de encanto - mas eu sei lá disso?

Falam muito de mulher - mas as que encontro já tem nome e idade.
Falam em postura. - Essa mal tenho. Nem tempo prá isso meditar.

Mas não me alcançam. Estou sempre em fuga. Ora prá cá, ora prá lá. Sempre me olham como um fugitivo culposo. Não tenho nada disso.

Tenho um boteco onde sirvo, em prato aguado, aguardente para os pobres.

Tenho uma mulher - dona de casa feita e de toda formosura -
que não para em casa nem prá se vestir.

Tenho uma charrete, dois burros,
e um cavalete de pau - invenção da infância, de quando eu era pequenino e me falavam, "roda, roda, roda no cavalinho".

O tempo senão passou atroz e me levou junto. Hoje vejo meus amigos irem um atrás do outro para as coisas do além, que digo agora, benza, credo, tenho medo de até nele mencionar.

Mas falo porque sou homem. Não tenho duas palavras. Sou dono
de meio céu e um montão de estrelas - companheiras solitárias de meus dias quando todos estão em seus afazeres buscando alguma coisa.

E eu,pedregulho, não estou buscando nada!

Ora um procura aqui, ora outro procura lá.Mas todos acabam na minha vendinha, onde vendo à centavos um sonho que mordaz o estômago.

Mas que posso fazer? Deles, não, deles não sou dono não!

|Cada um tem uma mulher de quadril forjado à cetim e pernas dopadas de panos escandalosos.
Coisas da moda passageira.

Na vida deles não me meto não.Sou rei, mas meu reinado não atinge o espírito dos homens. Se são homens, sou lá criança,
que procura a cada minuto me soltar no tempo,e
voltar com uma cruz na mão e dizer:
Pai, volta, volta pros meus braços e não os mais os entorta de saudades.

E digo, volta pai, sai dai e renasce como os homens dizem,quando
acaba o mundo, vem de volta, você tá fazendo meu final e uma falta comiserada!.

Hoje, se sofro açoites não tenho mais sua mão prá me defender.

Pai, volta,
até informo a hora certa:
hora do desespero.

Mas volta, sai dai!
Deixa de uma vez por todas de ser morto!

E vem me defender de espada dourada em punho,
arguido em celas majestosas de veludo.

Volta,pai,
volta prá me defender!
Mesmo sendo eu já um velho de antão!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/05/2006
Código do texto: T163913
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel