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Até Hoje Estou Lá

Sem muitas formas,
Sem decência
E sem
Postura,
O Produto de Primeira,
Bebe vinho
Na barra de seda
Da saia dela.

O Produto,
Ora à vida,
Sem crisna,
Quer Ter bons sonhos,
Beija santos
E teme os oráculos da morte,
Mas toma vinho na
Barra de seda branca
Da saia dela.

Marie se divide em
Quatro boas partes:
A parte dela
A parte do amor dela,
A parte que reparte o amor
Menos para a Primazia que não é.

Ela faz divisão meio descrente –
Com barro preto
E cinza de fuligem –
Do puro amor
Que reza fardos
Debaixo da barra de vestido
Dela.

A Primazia que sou eu,
Ela numera
De 1 a dez
Entre 13 e 15h
Faz raiz quadrada e
Diz desmedida:
Primazias pro bar!

Ela usa colete de marfim,
Têm olhos blindados de azul
Tem corpo de frutas
E espaira no ar um certo encanto
Que só de anjos tem dez apoios,
Dez proteções.

E um santo grande que guarda
Sua porta de cedro eslavo.

Mas de bom que sou,
Produto de Primeira,
De lá não saio e bebo vinho,
Debaixo da barra de cetim branco
Do vestido dela.

Batalha em campo
Nobre:
De um lado mil vestais
E de cá – me desculpem –
Só o Produto
De armaduras de vidro
E com um grande jardim
De esporas de ouro
Montado no primeiro cavalo
Do reino – posto em praça
pública – de puro cimento
E imóvel feito louco missionário.

Bom Produto sou eu!
Catalogado de Primazia,
Sempre na ante-fila,
Rodeado de aspargos
E doces espíritos.

E lá chamam:
Lá vai o vintém-suicida,
Lá vai o trem de brinquedo,
Lá vai o de infância sem terra,
Lá vai o sonho derretido...

Mas eu, Primazia de Carmona,
Só ligo, ligo mesmo,
Quando, bebendo
vinho,
Me tiram debaixo da
Saia dela
De cetim puro.

Na hora da busca,
Gritam logo:
Lá vai o Produto de Primeira!

Corro do aprendizado
Pois sei
E creio nos homens,
Que eles matam os que
Nascem e matam mais os
Que mal morreram.

Mas a mim, não,
Debaixo da saia de Marie,
Só bebo vinho doce
E me acalento em sua saia.

E que declarem a Primazia de Carmona,
O segundo,
Por uma razão de amor:
sensibilidade à parte,
sou dono da primeira noite e
da primeira dor.


Em 1941 – época de Mary Quant -
Estava eu de sobretudo marrom,
Boina preta
E cachecol de meia-cor,
À espera do primeiro amor,

Quando um homem de aparência
Rude e exemplar,
Me cercou de santa complascência,
Soltou cinzas entre os dentes,
E do bolso puxou uma arma
Que até santo temia.

E disse, bondoso como
Uma pluma.
-Seu Produto de Primeira
Palha seca, busca-pé sem pólvora,
Padaria sem pão,
Empório sem aguardente,
Larga Marie
Larga, senão morre.

E eu temeroso em perder
A pouca vida
Corri pra barra da saia dela
E até hoje lá estou:

Bebendo vinho!
Bebendo vinho bem debaixo
Do vestido dela.
Como um Produto
De Primeira,
Como uma Primazia de Carmona.

E que inveja têm os
homens do poder
em saber que eu,
Produto de Primeira,
busca-pé sem pólvora,
Sou a Primazia de Carmona.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/05/2006
Código do texto: T163925
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel