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Minha Vida Mora Numa Esquina

Alada
Bom caminho foi o que encontrei;
caminho de fêmeas absortos e cálidas
de tanto amor.
Bom caminho, encontrei no passar da vida;
era uma prá cá, outra prá la;
tudo igual, tudo diferente,
com uma pontinha de sal e pimenta.
Se você quiser trilhar este caminho
não pense duas vezes
- é um tanto e demais -
para ter todas basta ter uma só -
faz dela, milhares
e compõe sempre uma valsa triste
- que mesmo sem danças -
ela fica fruto de suas coisas
pai de seus filhos,
amante eterna e alada.

Ancião
Vou andando a tiracolo,
nos passos dos outros,
vou andando com desdém,
pois sei que do outro lado
me espera só grandezas miúdas
e quentura de ferver.
Por issso devagar eu vou.
Lá encontrar o que restou dela:
um par de saias de cetim,
uma crespa de algodão,
almofadas de ombreiras
e um vasto caldeirão
de saudade sem perdão.
Ela já lá não estava
pois - me disseram -
partiram com um ancião
Flauta Doce
Tirei o dia para ver as coisas
E há tantas para sentir.
-Mas há de saber sentir:
o vôo áspero do trilho que faz o pássaro,
a luz que o arguto sol deixa no céu de azul
diferente, até igual aos azuis comuns, mas
diferentes prá sentir!
E fui sentindo as coisas da manhã.
E fui sentindo flauta doce
que partia dela.
E fui me magoando em ver tanta
beleza por fora
e tanta miudeza sem sala
esbanjando no corpo dela.
Que um dia já foi meu e, agora espero,
Jamais ser réu da vida dela!
Ela hoje é flauta doce onde
todo mundo põe a boca
Pobre
Vou além das coisas,
mas não passo da meia-volta.
Vou seguindo meu caminho sem trilhas
uso até pilhas prá me iluminar!
Vou atrás dela, onde ela for.
Sei que ela não espera
nem cortesias - amém.
Mas um dia vou lá e entro
na casa dela e digo:
meu senhor, meu senhor, essa mulher
não foi feita a seu molde
ela nasceu prá mim
e tudo foi um descuido
da natureza
que trocou
jasmins por rosas
um pobre-pobre
por um rico de latão.


Conquistas
Hoje é dia de festa
todo mundo se confraternizando,
eu, igual a um tolo e oco
esperando na estrada do Pinheirão
por ela aparecer dourada e sem bandeira,
dizendo prá todo mundo ouvir e faturar:
Não sou mais seu amor
Sou seu fim - que nem história teve.
Nem um paraiso conquistou!

Ouro
Orgulhoso estou
nesta vida de vintém
ganho pouco
mas sou feliz.

Feliz de ter nascido
Feliz de nunca ter ido
à casa dela e pedir
um pedaço dpão
- como um faminto cão -!

Sou feliz assim,
perdi tudo o que tinha
até o ralo amor dela.

Mas ou feliz
isso eu sou.

Pois ela um dia disse
-bem sentimental -
que eu era seu único e bravo amor.

Mas que comigo não podia ficar
Pois não tinha eu um trocado, um centavo.
- Pois sou fornecedor de angústias e
apenas
barras de ouro pro sonho dos outros fincar!

Buraco
Quero sair deste buraco -
uma toca até sentimental -
cheio de raízes e fungos,
pedras úmidas e desconvexas.
Daqui quero sair
Prá pelo menos dizer prá ela:
Ei,espere, sou eu,
aquele teu amor eterno
que você sepultou faz séculos!

Barco
Se vamos nesse barco,
vamos prá valer
aqui só cabe homens
e cambaleantes foragidos.
Se tenho que ir, vou só
procurar trilhas
e desvendar mistérios
que durante toda a vida
ela escondeu de mim!

Pois até o que tinha dentro
da roupa dela
Ela escondeu de mim!

Sem rastro e sem lastro.
boa mulher de mil maneiras
uma rainha de tirinhas
onde não chegam perto
nem as criancinhas!

Coroar
Na hora de ser feliz,
quase ninguém é.
Não porque não quer,
mas porque de lá prá,
nas idas e vindas,
deste mundo amendontrado
Todo mundo foge, até da sombra, v;a á!

Só tem desvasalados e compulsados
que fazem da vida uma coisa sem sentido
até passageira, sem graça ,oca e senil.

Pois a vida não é isso não.
Tem mais coisa!
tem mais vida dentro da vida
que o vão pode esperar:
tem a graça, a beleza, o amar
o perdoar, dar e receber,
tem o eterno amor prá coroar!
Pressa
Uma garrafa de aguardente é bom nessa hora
Hora de ninguém!
Cai a ave-maria e tocam seis horas;
Eu, com muito medo da vida
que eu sei que só tem uma volta,
só idas,
me escondo atrás de meu copo e digo
Manuel, Manuel, me traga mais uma dessa
pois tenho medo e não tenho pressa.

Açoites
Quero um sentimento qualquer que tire essa dor,
Dor que vem de dentro
Nem sei se de alma; é
arrisca, destrói e corrompe
todos os meus sentidos!

Mas encravo a dor do sentimento nela
no mais fundo trigão de terra.
Prá ficar lá e esquecer!

Assim, deito no colo dela
-de puro cetim -
e espero pelas boas novas:
mas que não venham de açoites!
durante meus pernoites,
na casa de ninguém, onde
toda noite todo mundo se renova!

Barco
Nem pensar em coisas boas,
boas só existem notícias que não chegam;
boas só existem as imagens do oceano,
boas são as de ventre livre e de olhar opaco.
Espero por notícias, ao menos alvisareiras.
Que seja um barco a chegar
Um porto a aguardar.

E com a mulher que sempre amei
afundar no mar sem fim da vida
que faz outra vida dentro dela.
E por fim largar o mal pelo bem
Ser um eterno plebeu nas terras
do Rei Coliseu!

Restos
Que lavrem o livro da vida
e façam o pouco de minha
uma árdua lavratura;
de duas canetas, um escrivão
e uma perda só de vãos.

Hoje uso avental, sirvo à mesa,
desfaço manchas e sou destro.
Que lavrem o livro da vida
mas me deixem só, de resto!

Rua
Tenho pouca vida pela frente
e disso não me arrependo,
de já ter nascido grande!

De nunca de ter sido moleque de rua,
pitulito de esquina,
criança de bola e de meninas.

Pois criado fui entre quatro
paredes de Paço, onde só me
ensiraram a perder! Me
desmonstrando toda hora que o
mundo é redondo!
Redondo, redondo igual a uma gude
que nunca vi de perto!

Prá Ninguém
Vivo sem poderes
pois vivo sem tamborotes,
ou qualquer som que me desperte
deste sonho de mil almas
onde a força de minha vida
morre, pobre e descascado,
dentro da vida dela.

Hoje,
sou apenas rubrica sem nome
das lembranças de Maria José.
Mulher que hoje, desiludida,
virou prá dois homens
coroada de dois amores falidos.

Que vida ardida!
Que vida perdida!
E minha alma chora por isso:
Por perdê-la pro destino
que a carregou com o vento
pra terra dos alforjes!

Praça
Na praça amena,
cheia de luzes, pipocas e doces,
fico eu sentado a pensar:
cômodo como uma vela,
plácido como um vento calmo:
como pôde tudo isso acontecer?
o ontem virar hoje
sem ao menos dizer que jamais
teria de volta a minha pobre alma,
meus arcanjos prometidos!
Minhas amadas desmedidas!

Vaga
A vida é vaga
como é o puro mar;
uma hora morno e plácido,
outras feroz e ácido!

Vivo no último extremo
de minha vida: no mar cálcio!
Me chamo Acácio e de mulher
só comprando,
só comprando.
Meus amores estão amando os desleixos e
coisas e coisas,e todas, me largando.

Voltas
A vida dá muitas voltas
Ah! isso dá!
E não é para menos:
Uma hora estou aqui,
outra, vago lá.
Mas no colo dela
nem por favor - do pouco amor -
ela deixa,mesmo se muito penar.

Corda
Quando tinha lá meus 18 anos
queria conquistar o mundo
e suas coisas!
Bravo homem de duas portas!
Hoje nem a si mesmo
conquista.
Ao menos ganha apenas uma torta
da boa vizinha apiedada de valentes e moribundos!
Onde virei instrumento de pura corda!

Ralas
Quero uma gaiola de poucos
prá sempre morar!
aqui onde fico
tem reis e rainhas,
-acho muito - são ralas
e de ventre curto!

Prefiro mina morada:
pálida casa, sem amores,
mais me cai como uma luva
e me faz chorar -
essa história sei de cor:
minha vida mora numa curva!

Achados
O amor da gente
às vezes fica perdido
no setor de achados;
fui lá um dia buscar;
mas tinham vendido
à lance curto:mas bem medido,
minha única de nascença,
meu amor de verdade!

Soleira
Romance à parte
sempre fui o segundo;
mas estava sempre de saída,
por um motivo ou por outro,
a donzela sempre me pedia:
bata a porta quando for embora
reis de pouco na minha soleira,
não ficam não!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 30/05/2006
Código do texto: T165747
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel