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Senhor das Portas

De sua tez amistar
rodeiam pontos de suor
e certas tonturas que não têm cerca.

Fui chamado à proa do nada para conhecer
a dona da morte: senhora bem-vista,
temerosa e amedrontada e tão
bela como arroz-doce.
Mas senhora, dona de todo
o Norte,sabia eu,lá aonde
faz a vida e
mas semeia a morte.


Fui chamado a provar
minha vida e
certos amores.

Fui chamado a provar
de identidade e
provas vãs,
todo o poder
de uma jovem de duzentos
e duzentos e poucos anos,
dona de mim,
escrava do Senhor das Portas.

Fui enbojado de suor,
trêmulo de alegria
e augusto de pavor,
tentar com molho de vinagrete
colher os frutos da bela paisagem
e rever o que fui ontem -
dono de pedras -
e o que sou hoje -
dono de portas do tempo.

Rude Senhor das Portas,
que só nos deixa no cercado.
No árido, nas janelas sem emoção.

De duzentos em duzentos
e poucos anos estaremos
de volta - disse alguém
de angústia emproado.

O resto não importa mais.
A rua tangenceia de povo,
urnas e estátuas.

Os prédios nos fazem
coisas minúsculas
mas dele somos donos.

O Senhor das Portas
só faz perguntas etéreas
e nos deixa sempre no cercado.

Pergunto por Marie e ele
solene, diz: Marie só, se foi.
Eu sozinho, juncado de
instrumentos que me levam
em direção sol
só pergunto por Marie.

Ontem, duzentos e duzentos
e poucos anos,
lá estava ela de blusa carmim
e beijos escorridos,
com saias de belas rosas.

Tramitava em si a ordem maior
do Senhor das Portas:
faça dela coisas de amor
e entregue ao mais
sério rei
dono das terras interiores
que faz do homem um pouco de sal,
faz senhor das pedras
com seu reinado sobre o sol.

E fui e voltei
durante duzentos e duzentos e
mais poucos anos.

E lá ela continuava
em sua escuridão.

Havia partido para
os juncos do Senhor das Portas
e, de resto, só um pedido
deixou: faça dele um rei.

Da rua onde moro,
onde chove pouco e
neva forte,
posso ver todos os
dias, dias de manhã à
sobrenoite,
ela passar lúgubre,
abraçada ao Senhor das Portas.

E apenas um olhar me lança
e sobrepuja em seus lábios:
espere mais duzentos e duzentos
e poucos anos
pois até lá o Senhor das Portas
libertará seu amor
da vã eternidade
para seus braços mortais.

José Kappel
Enviado por José Kappel em 31/05/2006
Código do texto: T166538
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel