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POEMA AO AMANHECER


Se entendes o sol como o jorro da cabeça pendida
Desde a Grécia mais antiga /
Deves a noite entender como o fogo da cabeça
Mais antiga do ser /
Entre as duas coisas os olhos da estátua
Imortal e sensata /
21E a mão que levanta a espada é a mesma
Que o cordeiro afaga /
E dentro da memória ruge o labirinto
Ao menos do toureiro fugidío /
E na imensa geleira do coração moderno
O coração em estado de sítio /
Nem um fórceps à colera servirá como modelo
De quadro impressionista /
Como imagem antiga que se perde do cais
O rumor do casco se avista /
Desde que a lanterna se entende por gente
É levada pelo rumor do repente /
E os besouros e os colibris dividem o mesmo espaço
Nos braços da flor /
Ainda assim o imortal manto descansa na caverna
Do mais temido espanto /
Enquanto o homem caminha sobre as brasas que acendem
O sal em pranto /
O bebê chora pela úmida teta que a natural realeza
Estende dos confins /
O tempo passa e o corpo e o que vai dentro
Não mudou de forma e fins /
E a Terra ventríloqua de si mesma conta e reconta
Seus guerreiros mortos /
E volta ao forno da esperança e mais produz /
E mais expõe as fotos
Dos seus filhos que pertencem às geleiras
Dos sinais e grades cinzas e dopadas /
Mais ainda o ranger de engrenagens come à vontade
As entranhas sagradas /
Depois que o sol se pôr haverá uma festa
Com pão e vinho e sacrifícios /
Mais tarde e dentro da noite em sua tenda
E com fios de luz e resquícios /
O Rei do Io-Iô sabe que o vertical segredo
Está na curva do tempo e denso /
Que não se perca pela seara dos relógios
O construtor do curvo vento /
E o resto da humana idade erga com a força
Multiplicada dos seus temidos braços /
O mar que se separa em peixes e dejetos
Náufragos e sujos compassos /
Ainda assim restará a taça quebrada com uma gota
De sangue e uivo de alma /
Ainda assim o sol irá se pôr por entre
As pálpebras cansadas e as pegadas /
Do pastor de rebanhos traçarão o rio
Em que se mergulha a roupa de todo dia /
E num assovio longínquo o amor procura chamar
Os que ouvem pelo coração que fia /
A tela extensa e invisível que pela manhã
O sol estende como um cobertor
Aos que sentem frio de si mesmos
Como argonautas dentro do torpor.

Preto Moreno








Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 06/06/2006
Código do texto: T170530

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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