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Um é Pai , Outro é Sermão

Sou homem de dois horários
todos os dois incertos e imprecisos
um dá prá cumprir
outro nem prá desrepeitar.

Mas,

Não sou dela pela contagem do tempo,
Pois o tempo sabe lá bem contar,
Mera formalidade das horas
Imposição do destino.

Não sou dela, pois deuses embriagados
erraram a contagem de tempo e em
vez de uma coisa fizeram outra:
em vez de cair ali , fui cair aqui.

Tudo,para eles, mera formalidade.

Fui nos registros do tempo
coisa difícil de se achar,
mas fui lá e encontrei
onde deveria estar e não estou
onde deveria ter nascido e
não nasci.

Tudo culpa dos deuses embriagados
que, fatigados de tanto nasce-nasce
e atiçados em orgias,
me jogaram no tempo errado
e na hora errada, enquanto
cantarolavam músicas no contrabaixo.

E quando lá falo de horas, falo
de séculos, pois o tempo é bem dividido
você vai para as Cruzadas, você, poeta, da
Antiguidade.

Não pude reclamar pois reclamos
de ansiedades e angústias eles lá não aceitam:
só coisas formais: morre um nasce outro.

Um é filho de alguém outro é filho de ninguém outro é pai suspeito.

Um é pai, outro é sermão.

Um tem pátria e luta por ela
outro tem terras e as areja com mãos calosas.

Eu não; vim errado para um tempo incerto.

Agora deixa dizer o porquê:
porque agora sou homem de espada e
bom guerreiro.

Alguém acordou minha madrinha e disse:
vá lá e anseia este homem de tantos desejos
e dúvidas.Tórridos desejos e tenazes dúvidas!
O faça um homem incerto.
Mas o faça um semi-deus apaixonado
por espíritos iguais aos seus:
mesmas dúvidas, mesmos anseios.

Quem contem sempre a mesma hora.

Mas na data errada fui criado.
Nasci quando não haviam carros, só carruagens;
nasci com o leiteiro batendo na porta de madeira,
cedinho.
Quando nasci nem bonde havia.
O avião estava sendo criado.
Mas a mulher já estava formada!

Nasci sem sono, mas duvidoso
E minha primeira pergunta qual foi, senão: onde
está ela?
E me disseram: ela está no outro século,
um dia adiante.

Então, cofiante na minha sobremaneira
desventura, passei a correr o novo mundo
e conhecer os homens e deles não gostei:
destruíram parte do homem e o tornaram
mero objeto de desejo.

Onirizaram a mulher a ponto de desnudá-la ao som
estridente de uma música qualquer;
tiraram seu coração e sentimento
e de pedra-de-sabão a tornearam.

Rodei o mundo inteiro sem achar meu tempo
mal sabia se ele estava adiante.
Então, num gesto bem medido e respeitoso
segurei a adaga reluzente e ponderei em
meu peito árido e insóbrio.

Foi uma morte só.

Agora, sozinho, caminho para
lá, para a terra dela. Sei que ela me espera.
Por isso coloquei meu mais brilhoso vestal,
assentei meu cavalo de arrreios de ouro
e cavalgo para o seu tempo.

E se disserem que minha história é de
todo mentira, perguntem ao Zé da Idade
o que vende aguardente e torresmo frito.
Perguntem a ele, entre um gole e outro
se minha história não é lá pura verdade.

De verdade pois foi asssim
que me descobri e descobri o meio-amor:
Tudo de bom para você
pois sou sucesso nacional
toco todos os instrumentos de sopro
sem arroubas e choros,
bem quietinho para a boa fada
nem perceber que dos olhos do meu tempo
despencam lágrimas de saudade do que não fui.

Entre um gole e outro,
essa é a minha história
e para desvendá-la
teriam agora de me roubar
meus trapos, meus sonhos
meu elo com a eternidade
pois agora está virando um novo dia.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 08/06/2006
Código do texto: T171497
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel