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Valsa de maestria

I

Dance comigo até o fim do amor
E olhe em meus olhos enquanto estivermos dançando.
Mas olhe só em meus olhos, e toque meus cabelos.
Não olhe a dançarina que baila ao lado
Com inconstantes rodopios, e doce voz.
Nem a que esbarra em nós a cada giro
E nos observa calmamente entre risos.
Não tente em vão observar a que nos fita
Incansavelmente para nos ver cair.
Não admire a que dança torpe;
Dançará assim também quando sua vez chegar.
Não se deixe tomar pela melodia vulgar
Dessa valsa que embala a paixão efêmera.
Não dance sua primeira dança temendo
Que seja indiscutivelmente a última.
E não dê o último passo da noite
Negando ser o primeiro de muitos.
Feche os olhos enquanto o liberto
Da valsa medíocre da vida.
E deixe que a valsa de maestria
Lhe guie em passos temerosos.

II

Dance olhando em meus olhos
E segure com firmeza a minha mão.
Não se importe se a canção é doentia
Ou se já cansado de tanto dançar
Os sapatos apertam seus pés surrados.
Eu lhe vi bailar sozinho um dia
E o fazia com tanta liberdade
Que me senti por um momento
Muito mais capaz de lhe amar.
Mas eu danço em frente ao espelho
E você em frente a milhões de bailarinas.
Olhe em meus olhos enquanto estivermos dançando.
E segure com firmeza a minha mão, tocando meus cabelos.
Eu espero a noite aquecer para sentir-lhe mais próximo
E você espera meu desespero para me abraçar.
Você me chama de linda e eu te chamo de ingrato.
Você me escreve um drama e eu um soneto.
Mas meu mundo se esvai, buscando compaixão
E o seu está apenas cantando amores, lacônico.
Você se agarra à vida
E eu moldo-me à ausência dela,
Querendo viver mais que tudo...

III

E agora em seus olhos estão brilhando
Todas as estrelas do nosso primeiro encontro
Mas nesse momento, neles não posso olhar
Para contar quantas estrelas chorará.
Pois olha a boemia instalar-se em dias badalados
E se esquece que aqui dentro vive todo o caos.
Espero que simplesmente não saiba disso
Porque eu não digo nada, nunca digo.
Eu me espelho na vaga moral da boa moça
E não falo de sentimentos sem antes os ouvir.
Nem falo de paixão pra mim mesma
Mesmo que a sinta agora tão dolorosamente
Que todo o meu corpo revela a angústia
Expressa em uma lágrima tão ínfima
Que o vento bate e logo seca meu rosto.
Por isso me acompanhe definitivamente
Nessa dança que já começa melancólica
Com meus passos tão firmes e decididos
Que a mim o chão se torna lâminas
Que a cada impacto jorra dores.

IV

Por isso dance comigo novamente
Olhando só em meus olhos enquanto estivermos dançando
E segure com firmeza a minha mão
Circundando com o outro braço todo o meu corpo.
Porque se tropeço com meus passos fracos
Você me traz de volta num instante.

V

Eu queria continuar escrevendo
Porque há um bom tempo parei de valsar.
Então me lembrei de um artista que gosta
E implorei pra canção tocar...
Ouvi e quis chorar, observando seu retrato
Enquanto eu pintava meu estado:
Você sorria, vivo, e eu flutuava, morta.
Jamais imaginei que a lua
Tivesse tanta dó de mim,
Pois resolveu brilhar na minha janela
Culposa por lhe enaltecer frente a outros
E iluminar-lhe tão lindamente.
Isso é saudade, ela me diz,
E eu querendo dançar só mais uma vez.
Quis eleger a nossa música,
Ou melhor, a nossa canção, a nossa valsa.
Eu não sei nem dizer que o que sinto
Nem o que mente,
Quanto mais o que sente.
Eu queria por tudo saber o que por mim sente
E eu queria pelo menos por pouco tempo
Esquecer tudo o que por você sinto.
Então dance comigo novamente
E decidiremos se a valsa é da despedida
Ou do beijo de amor cinematográfico.
Então olhe em meus olhos enquanto estivermos dançando
E segure com firmeza a minha mão
E só a solte ou me abandone
Quando o dó da valsa findar
E arrasa eu for ao chão:
Sem par, sem música e sem direção.
Maria Clara Dunck
Enviado por Maria Clara Dunck em 19/06/2006
Código do texto: T178410

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Sobre a autora
Maria Clara Dunck
Goiânia - Goiás - Brasil, 30 anos
73 textos (4623 leituras)
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Maria Clara Dunck