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Toalha

Ela arrumou a mesa, espalhando os pratos
Mas quis pegar a faca e decepar seus dedos.
Ao tomar o vinho tinto engasgou-se rápido
Mas a lágrima que caiu camuflou a fraqueza.
Então ela levantou-se pra servir a sobremesa
Mesmo querendo ir à sala e chorar sozinha.
Comentou que o chocolate estava muito doce
Mas o gosto que sentia era amargo e velho.
Ligou as luzes da varanda pra mostrar o lago
Mas quis jogar-se nele e afundar pra sempre.
Ofereceu educadamente licor aos convidados
Mas quis embriagar-se como nunca havia feito.
Ela sentou-se ao piano e tocou um andante
Mas quis arrancar as teclas e mastigá-las.
Mostrou a todos um inocente vídeo de infância
Desejando que ali fosse tudo interrompido.
Corou quando disseram que foi uma linda criança
Mas a raiva não permitiu se quer que agradecesse.
Ouviu todas as piadas, esboçando um sorriso
Mas na verdade ria do seu próprio cansaço.
Calma, contou porque ele a havia deixado
Mas por dentro ardia em angústia e ódio.
Disse que o amor entre eles foi muito grande
Sabendo que o sustentou sozinha desde sempre.
Disse que mesmo amando ele não honrava compromissos
Sendo que os havia sustentado com diversas outras.
Quis sorrir lembrando dos momentos felizes
Mas chorou porque os tristes afogaram todos.
Ela mostrou as fotos coloridas do casal
Mas só via o preto e o branco dos olhos dele.
Um convidado quebrou um copo de cristal
E ela lembrou-se de sua violência fria.
Foi à cozinha pegar o pano engordurado
Mas suspirou fundo recompondo-se do medo.
Deixou cair um copo sujo no chão
Mas foi um álibi para soluçar em segredo.
Despediu-se de todos com um aceno tímido
Querendo com a mesma mão tapear seu rosto.
Espalhou-se preguiçosamente na cama
Para não reparar o quanto estava espaçosa.
Tentou dormir como se não existisse a insônia
Mas quando fechou os olhos ainda via tudo em volta.
Ligou a luz do abajur e solfejou um minueto
E desligou-se do mundo, mas não do tempo.
Amanheceu e levantou-se depressa
Buscando os óculos que sumiram do criado.
Arrumou a mesa e colocando um prato
Esquecendo que ainda era segunda-feira.
Maria Clara Dunck
Enviado por Maria Clara Dunck em 02/07/2006
Código do texto: T186425

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Sobre a autora
Maria Clara Dunck
Goiânia - Goiás - Brasil, 30 anos
73 textos (4623 leituras)
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Maria Clara Dunck