Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

MENINO DO RIO DO SALSO

O menino do Rio do Salso
pensou que viver
era olhar para sempre
as águas quietas do rio,
e de nada mais precisasse.

Rio de águas claras
vestidas de verde,
ou turvas e barrentas
que serpenteiam
entre maduros seixos,
carregando consigo
nossas procelas interiores.

Com certa cumplicidade
se vai descobrindo,
pouco a pouco,
que o rio fala,
ele também tem suas vozes.

De vez em quando,
sussurra segredos,
acariciando as margens
com profunda ternura
e assume ares solenes,
deslizando bonançoso,
sem nenhuma pressa
de alcançar a sua foz.

E quando chove
se torna brincalhão,
avança galopante,
engolindo hirtas grutas,
feito capelas-de-águas
formadas na correnteza.

E, às vezes canta
num doce murmúrio.
Quando não amanhece buliçoso,
põe-se teimoso,
e se espreguiça,
enjoado da ressaca.

Depois do temporal
da noite anterior,
raivoso se veste
de roupagem escura,
se torna traiçoeiro,
berra, ruge zangado
e se debate contra as pedras
produzindo estrondos
de canhões remotos.

O rio também é atrevido,
faz carícias no corpo inteiro
da mulher amada
e ela, conivente mergulha,
se sacode, se espraia,
rodopia na espelho das água,
desavergonhada se exibe
e mente que o rio é inofensivo.

Nas enseadas calmas
se formam moitas verdes,
onde crescem miudas flores
e algumas gotículas de água
que à leve luz do sol
brilham entre os capins
quais pérolas que flutuam.

Enamorado de seu leito
e dos aguapés que crescem
na superfície das águas,
afaga a vida em profusão:
ramos verdes, musgos,
chorões  salgueiros
e as borboletas,
ah! as borboletas
voam a contragosto
sobre nossas cabeças.
Quando eu era criança
já colhi nas tuas beiras
poejo e avenca
para fazer chá.

O rio carrega
as tristezas alheias,
as minhas, as tuas
e as de todo o mundo.
Ensina a ter paciência,
esperar o momento certo,
para apaziguar os conflitos
entre o coração e razão.

Ó rio da minha infância
que brincava contente
com os meus sentidos,
porque não fiquei eu
sempre extasiado
às tuas margens.

Há quanto tempo
não ouço a tua voz!
Banha-me de novo,
lava em tuas lágrimas
a poeira de tantos caminhos,
e conduze-me a teu limbo,
sem alfabeto nem calendário.
Vê, meu coração continua vivo
e basta uma pequena chispa
para se abrir em labaredas.

José Luongo da Silveira
Enviado por José Luongo da Silveira em 18/07/2006
Código do texto: T196292
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
José Luongo da Silveira
Santa Maria - Rio Grande do Sul - Brasil
78 textos (1180 leituras)
1 e-livros (50 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 09:53)
José Luongo da Silveira