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Meia-Porta da Dor

Nada mais crível
e suportável do que
a dor interior:

para esta não há vencedores,
mas restos e fainas.

A dor interior é dona
de si mesma,
senhora de si,
dona de todas as carruagens.

Famigerada no amor,
indiferente à paixão.

A dor interior recruta
passageiros ao léu,
e os compõem numa lista,
onde cada um tem sua vez,
- é de graça e sem perdão -,
e seu momento e sua aparência
são convocados,sem data a marcar.

E tudo desaba como pingentes
atrilhados ao vento.

Dor pior: dor dos helenos apiedados
com seus navios entrelaçados;
dor pior do que a do bebê Rosemary;
dor pior do que todas as Chechênias,
do que viver lá em Serra Leoa,
onde braços e pernas não tem importância.

Mas atroz dos que o pavor de Zamzimbar,
onde as paredes de pedras forçam
seu coração,
pior do que um samurai azimutado
de óleo santo!

Dor de verdade que assola o canto,
leva a voz, emudece
os sentidos e faz de você
um simples prazer do veroz atiçador!
Dor destas nunca ninguém já viu!
Dor destas ninguém quer viver.
Mas ela chega e abraça
e roça e beija, se
contorce, é vivaz e
impertinente.

Nossa dor de hoje é dor de
agora.
É dor que, às vezes, passa
como léguas; é dor que, às vezes,
fica entre seus passos.

Dor dessa ninguem quer.

Mas ela vem e um dia chega
entre a moita e o vento
e junto te leva.

Não há como resistí-la,
enfrentá-la com arqueiros
ou sentinelas.

É a dor da vida,
se você não teve uma, acautele-se,
prá não ser vítima de duas, mas
uma, você tera.

Eu já tive, por engano, duas:
a de ter nascido, e de suflado
por ela.

Por isso, seja você quem for,
seja lá de que país primitivo
se outorgar,
espere e verá.

Num belo dia ela te abraça.

E é por isso, quando
lágrimas de alguém se acelam
na vida dos milagres de
cada dia, esteja bem certo:
é a dor interior que chegou.

Mas, espere que ela vá embora:
como uma bom ferreiro
ela deixa suas marcas!

E como bom sofredor
terá que viver também com essas
nódoas que fazem de teu corpo
um balaústre  de
perguntas sem respostas.

Mas se hoje sou eu,
amanhã será você:
estamos todos na porta.

Na meia-porta de ser
sagrado por ela.

Na meia-porta de toda
agonia interior.
Na meia-porta dos
Judas !
José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/08/2006
Código do texto: T206550
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel