Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Pedra, Fogo e Água

                         
PEDRA

Ordeno meus pensamentos,
onde toca o tango,
faço uma pedra
bem afeiçoada,
pedra bem ao gosto,
amarrotada pelo tempo,
esquecida no embrulho
da montanha.

Pedra que me faz pedra,
gente que me atiça adiante,
com fagulhas de ardósia,
criam uma moldura azul-afogueada,
e fazem
passos de um só homem
de uma vontade sem levantes.

Na vida,tudo amarroada!

Procuro lembranças dela
no pôr-do-sol,
onde desfila na vitrine
das despedidas.

Mas, se hoje sou eu que me perco
de saudade e sem vida,
a procura da moldura dela,
amanhã será você,
a procurar a verdade de tudo.

Mais virá tarde:
virá pedra sob pedra,
na ardósia da vida,
onde nada restou, senão pó,
de nosso grande amor gratinado
de só de adeus - sem Deus -
disso só viveu!

PEDRAS (2)

Ordenança das Pedras

A terra onde nasci não tem mais,
assentaram nela tanta coisa esgotada,
que ela foi sumindo, entrando numa
buraco escuro, onde até as flores
se refugiaram em outras terras
empanadas.

Minha terra não tem mais:
foi pedra em cima de pedra,
e, dai, nasceram prédios e mais
prédios,
-edifícios cintilados de solidão -
que foi, pouco a pouco tomado
por gente de terno passado, e mulher
com roupa de homem,
todos falando em celulares,
e roda daqui, roda dali,
os problemas aumentando,
a terra foi crescendo
e minha memória foi morrendo.

Mas não foi aqui que eu
sentava quando me barbeava aos
quinze anos? Namorava na terra
crescida? No apogeu da terra
dourada,batida,
crescida de esperança?

Minhas ruas foram trocadas
de charretes e carros de bois
por vistosos carros, - destes
bem modernos.

Terra de Sienas !

E até a cor da cidade não se dá
bem com a cor do céu: amarelo e
vermelho, tudo frouxo.

Ah! Terra Esgotada!

Fui também na antiga casa
dela.
Era pequena e tinha um
riacho a percorrê-la,
um jardim a moldá-la,
tinha cheiro de mulher,
cheiro de terra.

Fui na casa dela
não chorei, porque a idade
já não me provém deste
escândalo interior:
mas lá estava:
a casa dela,
onde a gente repartia
o dom da mocidade
entre beijos e abraços,
tinha virado tudo pedra,
também esgotada.

Não tinha mais nada:
literalmente, eram centenas
de pedras magoadas dispersas,
no jardim e arrolhando
o percurso do já minguado
riacho.

Terra dos Azáfamas!
Até o rei Axum varre
minha Etiópia!

E de minha terra
mais nada sobrou:
agora é pedra e mais pedra.

E nosso amor vigilante,
se tornou morte,
ela partiu prá lá,
eu fiquei cá só e
pensando:
pedra que faz pedra
torna o coração dos
homens de argila
mais não mata nosso amor.

Pedras! Fizeram da terra
aquecida, agora fria e
crescida.

Tão crescida como um desastre
interior!

E se não lhe dão nome,
dou um:
cedras vistas de longe
são...
Ordenança das Pedras!


FOGO

Babilônia de meus dias,
fogo que arde no peito,
- suplício e fogueira -
traz a de nome Maria
para os amores e meus feitos !

A chama que arde,
é a mesma onde reside,
os faroleiros que anunciam
na sensação de perca,
na fuga do que durou até tarde.

Ave!Dos bilbodes!

Tudo agora é palha
pra Fogo de São João,
a sensação é de um pirotécnico,
que, no dia-a-dia,
nem encontros coletivos
agora tem.

Não tem Maria,
não têm jeito,
não tem fogo!

A viver só de vida é sonho,
é bombinha de festa,
é fogo feniano.

Dela, que deixou minha paz abalada,
num fogaréu pulado,
primário e grego,
com uma asa pra voltar
e outra pra rodopiar!

Hoje, ao recordar
nossa vida,
tenho certeza,
que se você soubesse
ao menos, se eu existisse,
me carregava brando,lento,delongo,
e correria aos meus braços.

Pois igual ao fogo de
Maria, não tem.
O resto é de mal agouro!

Se ela se tornou fogo
e caleja agora outro
corpo,
a culpa é minha:

Sou dois perigos,
uma pólvora de tempo,
um fósforo de alentar,
pra, uma hora, virar,
alternativa da saudade,
ou madeira de consumo
ingrato.

Volta, Maria alvissareira,
senão viro
fogo de bebedeira!

ÁGUA

Sou justo,cristalino,inclinado,
perfaço a água, como infusão,
de um brado de amor;
sou aquoso,oxidante,
perfurador de ânsias,
barítono de uma grandeza
que me fez,um dia,
rei dos feéricos.

Rústico, de qualidade suspeita,
até precária,
rodo mundo como um riacho
sem precdentes:
nada me aguarda, as portas
estão fechadas,
sou piracema lustroso
e caminhante rodeado
de sal.

Axés!

Rodo à volta,
e nela goteja
louro-cerejas que formam
frutos,
que,algum dia,
será água de rosas
mas sem face,
com presença falida,
em minha borda mortuária.

E rodo mundo sem cordas,
e enfrento lagos,fontes,
bradeado de chuva.
Até vento de ordem!

Sem valor,mais zeloso,
rodo por dutos seculares,
destilado,meteórico,
de tamanho fácil
e cheio de dores
vacilantes.

Se somos dois,
somos parte de água,
lustral das flores e musgos,
percorrentes da vida e da
morte - lá onde cai o sol
e levanta a lua.

Se somos dois,
somos partes,
e dentro de amores,
a gente jura, sem querer,
o que hoje é dormente
amanhã será diferente.

Nas águas panadas
levamos o sabor amargo
da despedida.
Mas,
sem cores aladas.

Um dia você se foi avoada,
como rolam águas,
sem jeito de partir.
Um dia você se foi
como coisa do passado.

E teve gente que disse:
lá vai ele:
carregado de intrigas
e pouco perdão.

Lá vai ele - diziam -
O homem que veio da noite,
disfarçado e descobriu
o fogo,a pedra e a água.

Mas, desvendado de carinho,
foi morrer
entre os reluzentes
marinheiros
de alguma praia
sem nome e perdida.

Lá na fervura,
onde aquecem
o gosto do amor-mar,
de cerejas e espinhos,
e dormindo, pra sempre,
ao lado de uma definhante
água-marinha.

ÁGUA (II)

Sou ânsia da água - orgulho de reza -
celebrante de seu brilho,
macero meu destino em seu apanágio,
corro montes pela sua pureza.

Sou vida por sua causa,
sou andante de reis,
nunca sou posto à prova de fogo
e vivo cristalino,o lustroso
exulta de alegria minha rala alma.

Sou ânsia do que vêm da água,
sou coisa fácil, até maleável,
venho de reinos de celebrantes
onde exorcizo meu amor saudável.

Não vim de longe,
vim de lado dela,
vim dos sais,
e me apronto de luz
próximo às pontes.

Água panada !

Não me importo com
geleiras,cursos magoados
de água, com lagos
que nos refletem e prometem:
um dia o que é volátil
será porta de entrada
de nosso amor
instável e inacansável!

Se da água tudo me faz vida
procuro em seu banho-loiro,
minhas forças apreciáveis,
para fazê-la de toda,
meu amor fadado,
um amor que até hoje, só
teve idas, paz e
vertentes das águas de
telhados!

De volta, ninguém falou!

E um dia ela partiu assim:
abriu parte de água,
e se tornou tão etérea
como ave de bom agouro,
banhada pela garoa.

Mas, uso pote encantado,
para guardá-la:
assim, feito de barro,
mas cheio de amarras.

Águas de barrelas!

Sei que água e vinho se misturam,
sei que um faz o outro,
mas meu curso já está feito:
hoje sorvo seu beijo sem suturas,
hoje faço seu dengo,
mas dela faço minha primeira água,
meu primeiro de beijo.

E, se partimos,
um prá um,
dois - de que lado?

Espero com a taça de água
e o ameno vinho,
a hora de você chegar,
e abrirmos a garrafa da vida
a botelha de luz.

Que agora nos cedra
e nos convida,
para a próxima ceia:
você de branco - igual
a mais pura água -
eu, de vestal, a servi-la
como o mais vasto príncipe.

José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/08/2006
Código do texto: T206574
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
2147 textos (26780 leituras)
1 e-livros (125 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 06:18)
José Kappel