Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Canção da Irrealidade Cotidiana para Fagote e Cravo afinados na Ordem Implícita

Canção da Irrealidade Cotidiana para Fagote e Cravo afinados na Ordem Implícita
A Juliana, Augusto de Campos, David Bohm, Ken Wilber e Blimunda.
“Aprendam pois a alquimia, também chamada de Spagíria, porque ela lhes ensinará a distinguir o falso do verdadeiro”. Paracelso.

Se o que vejo e não desejo ante meus olhos se apresenta
Como a verdade duradoura da mais fiel projeção
Do que seja a realidade... Então se me ausenta
A alma aos sentidos em sentimentos sem razão...

Se a dor do momento presente a mim me consente
Apenas o sentir-te longe e diáfana como miragem
Do deserto que em espaço aberto e renitente
Brilha ardente nos olhos como fogo na paisagem...

Então, meu ser, ignoto de mim e de tudo o mais,
Recobra dum outro plano lembranças de um não foi...
Dum tempo que não foi tempo, dum espaço sem sinais
Ou dimensões, em que meu espírito não conhece o depois...

O que está manifesto, explícito, óbvio e evidente
Se reduz como feixe de luz num reta previsível,
E o que passa ao largo, sorrateiro, inconsistente,
É o que se oculta entre o que é visto e o invisível...

Fluido, constante, sem métrica, de arruinado padrão,
Como esses versos incompletos, mas diletos
Duma voz que não sei donde vem, se do coração,
Se do inconsciente, se doutro ente em mim secreto...

Não sei, não conheço de forma clara seu motivo,
Sei apenas que não quero desistir e não desisto,
Que prossigo, invariável, mas mutável em aditivos,
Olhando-me ao espelho sem ter a certeza que existo...

De que me serve a certeza do momento exato?
Que horas são? Que dia é hoje? Que país é esse?
Que cidade é essa? Quem é você que neste ato
Fútil do agora se me mostra com desinteresse?

De nada me serve a certeza de nada do hic et nunc,
De nada me vale que me cale essa voz inaudível
Que plange em ultrassom como um cantor punk
Numa ária aérea sem palavras duma oração inacessível...

Não vejo suas cores, não sinto seu calor,
Não ouço sua música ou voz, seu perfume inodoro,
Sem corpo tateável - preciso dum outro sentido de valor -,
Mas mesmo assim creio e preciso e quero e adoro...

A Humanidade se fez numa estranha realidade
Que limita tudo ao que pode ser visto, pesado e medido,
Mas, cada um de nós mesmos somos na irrealidade,
Somos o que não tem razão e nem sentido...

Que santo de que religião ou divindade
Me ouve agora que não desce e vem
Que não me amaldiçoa e me diz por caridade
Dos meus pecados e erros e me sobrevém

Um martírio constante como um prometeu acorrentado
Sem compreensão de sua falta, de seu desconserto,
Tendo diariamente seu fígado arrancado
Por aves de rapina que me consomem meus acertos...

Por que o que é sonho é só e somente sonho?
Por que o que penso no fundo de minh’alma
Não se faz tridimensional no lugar que o ponho?
Por que o que é aqui e agora em mim é trauma?

Separação do que existe e do que podia ter sido,
Incompletude do que melhor seria e do que pior fora,
Desencontro entre o que me vai em mim e o que já é ido,
Nulidade na soma de mim com minha vida professora...

O que me resta neste desconsolo variado
É que nunca o que findou por se acabar
De fato verdadeiro fora mesmo acabado,
Pois tem casa em mim o que não tem lar...

Ando por aí espalhando blasfêmias e heresias,
Piadas sem graça, canções disritmadas,
Provas falsas de esdrúxulas teorias,
Certezas vãs e orações mal intencionadas...

Quando a gente se sente assim como quem é nada,
Como quem não começa porque não tem começo,
Como quem não termina porque o fim é nada,
Como quem não se lança porque é sem arremesso...

Quando a gente se sente assim, eu particularmente,
Olho ao lado do que não tem lado nem outro lado,
E descubro que o que se me faz assim meio demente
É que daqui até aí é o pequeno cercando o grande por todo lado...

Uma gota de água contém todo o oceano em verdade,
Uma lágrima contém toda a tristeza e melancolia,
Um desejo que não se realiza contém a realidade,
O que foi ontem e já não é, hoje será que existia?

Sei muito mais e menos do que eu pensei que sabia,
Sinto muito menos ou mais do que eu já senti,
O que está por estar e ainda está é coisa vazia,
O que se vê se vendo não é daqui ou daí...

Disparates, oxímoros, antíteses e paradoxos,
É tudo o que me resta para explicar o que não sei por razão,
Mas o que me cabe além de mim em mim é heterodoxo,
É assim mesmo, não sendo e sendo, separado e comunhão.

Conheço o segredo dos vinte e dois sinais,
Sei os mistérios de todos os números e cifras,
Só não sei até agora o que vale mais,
Como se une o que se desconhece com o que se decifra...


(Música de Fundo: "Estrada Real", composição de Jayro Luna / The Lee Bats)

 


Jayro Luna
Enviado por Jayro Luna em 08/08/2006
Reeditado em 21/08/2006
Código do texto: T212133
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Jayro Luna
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
97 textos (48116 leituras)
12 e-livros (1726 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 17:55)
Jayro Luna