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EPITÁFIO

I

O dia sim,
e o outro também,
deram um diagnóstico
assustador para Epitáfio:
sofria de mau-humor crônico.

II

Acordava com o pé no avesso,
esquerda à frente no frio chão.

III

Sempre bebeu café amargo
requentado pelos anos de solidão.
A caneca torta, quase em derrame,
transpirava com o calor de sua boca.

IV

Nunca teve medo das balas de Cosme e Damião
nem pavor das mãos, vazias, cheia de fome.
Nunca correu com os pés no chão atrás da bola
nem vibrou,  jamais, por um gol do Brasil.

V

Em seu esconde-esconde
trocava de identidade
com óculos e barba amadoras.

VI

Amigos?... Nenhum restou.
A fria palavra, companheira,
amargou qual seu café em vida.

VII

 Fora preparado a pensar
que a morte lhe chegaria cedo
e sem cara de zoológicos.

VIII

Epitáfio é de batismo!

Num dia bastante comum,
do qual nem se lembra a data,
sua mãe, com sua curiosidade carpideira,
leu, num cemitério, palavras gravadas ao gesso.

— Meu filho será Epitáfio!

E Epitáfio, quantas e quantas vezes,
brincou de morte com a vida
mesmo quando franzino de quilos
e com cara de anjo-defunto.

— Será Epitáfio. E pronto!

IX

Foi Joaquim, Giovanni, Marcos e Manuela
sem nunca ter feito nada para mudar seu nome.

X

Agora,
um peso de chumbo
lhe corrói o surdo ouvido esquerdo.
A dona na pensão grita,
sua voz de gralha não mais o ensurdece
por mais que tenha ouvido a fala das gralhas.

XI

Café com açúcar
e uma voz de água e sal.
Epitáfio, exigente, quer biscoitos de goma
daqueles de merendeira, escondidos pela infância.

XII

Marilita , a dona da pensão,
no seu silencio histriônico de gralha,
tem, para Epitáfio, um jeito de mulher bonita.


XIII

 Em seu quarto claro
os cadáveres de corpos passados
ainda fazem requentar seu café amargo.
 
XIV

Pela causa,
Epitáfio perdeu
até a sexualidade!

XV

A porta bate.
Epitáfio levanta-se com o pé direito.
Marilita, carinhosa, sem saber do seu passado,
entra no quarto e pede silêncio sem revistar sua memória.

XVI
 
Epitáfio vive!

XVII

Na porta da pensão,
incomodado pelo riso frouxo dos homens,
Epitáfio, com seu habitual mau-humor crônico,
brigou com o padeiro, com o verdureiro, com o leiteiro
até com a pedra na soleira da porta, inanimada e imóvel,
que apercebia Marilita, de manhã, sair à rua sem roupas de baixo.
Djalma Filho
Enviado por Djalma Filho em 06/06/2005
Código do texto: T22419
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Djalma Filho
Salvador - Bahia - Brasil
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