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Dias de Breu

Sou filho do escuro,
e não me apetece brumas;
sou filho regenerado,
mas não sou capitão de escunas.
Sou filho passado e construído,
lentamente, através de meu tempo
e dele não abro mão,nem que me tentem.

Sou filho das águas
e não me apetece o largo;
sou filho da álgebra com
o amor.
Na matemática de horrores,
nasci aqui com alto indolor!

Não posso mais sentir meia-pena
não posso me envolver nem com os dias
- neles me perco -.
Não posso me envolver com nada vivo
pois me sombranceio de angústia.

E tudo é palpável como
brinquedo de criança;
a vida pulsa a cada metro,
e me desaba por dentro
um tino de tristeza,
pois alcançar a vida
não dá mais reteza.

De dia branqueia a lua meiada
à noite, ela de gala,
se posta ao meu sombrelo de pala
e diz:
nunca mais, nunca mais
fará parte de qualquer ala.

Viro brinquedo disposto
e carinhoso; viro régua de quatro,
mordono de jardim, reta larga,
de mão dupla, corrimão de
casa velha e, de repente,
se abre um longo
espaço para minha festa interior:
e,assim, estou pronto.

Já não sei mais fazer nada.
Sou personalizado!
Receio que me cantem de
eternas orações lá no céu,
por isso tiro o chapéu e
esperro.

Espero as orações chegarem
a mim. Mas isso leva tempo.
Até hoje já levou um montão
de milhares de anos;anos e anos,
sem manobristas!
Enquanto isso coloco pela casa,ramos,
faço minha agenda,
ouço as notícias,
me remoejo com a indolência.
Hoje sou prato frio,
com amplo estacionamento.
Tenho qualidade no atendimento,
mas perco pela voz e pelo aniquilamento.

Assim, passam os dias
e eu rapasso as mãos no vazio,
procurando decalque de estrelas
prá me marejar.Um alívio!
Sopra o primeiro vento de inverno
e eu me guardo.
Tenho medo de ter medo,
tenho receio da apreensão,
tenho pressa de ser o que não sou.

E nesta hora quando se falam em santos,
arredo o pé. Tento tanto medo de pertencer
a qualquer céu ou reluzir nesta amarga Terra.
Me dói,sem assistência de fenecer!

Fico só. Tá bom assim.
Abro a janela e vejo passar
meu primeiro sonho da vida:
achar um copo mágico de vinho
e sofregar um gole suave,
prá afastar minha vida
da vida que me criou,
das coisas que disseram que eram
e agora morreram - ou morrendo
estão -
plenamente e devastado,
pelas minhas mãos vão escorrendo.

José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/09/2006
Código do texto: T230367
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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