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Cores de Minha Tela

Ela vivia achando que tudo era uma mágica secreta, e que seus sentidos eram confiáveis na confirmação de tais eventos.Mistérios que o tempo tem.Cada dia era mais como uma página de um livro passada por entre os dedos, lida, relida, como se fossem táteis todas as letras nela impressa. Como se o dia fosse tipografia e a folha a alma.
E ela começava assim: Livro impresso de minha vida interminada, coisas boas aqui e ali mais os desvãos. Natureza de horas que eu nunca soube, mas aguardei com se soubesse. Como se todas as coisas pudessem florescer num instante impreciso, e podem. Eu chorei e sorri, formando um mar de ilusão.Hoje nessas mesmas lágrimas e sorrisos mergulho para achar riquezas e contos bonitos.Inexatidões.
Quero a alegria cansada do tolo, a mediação daquele que vive da ponderação e o grito do louco aborrecido com a perturbação alheia.Quero o fluxo do inconsciente dizendo que existem borboletas que acendem em plena escuridão.Quero o sonho rasgado daquele que vive e se pensa acordado e quando acorda acha que ainda sonha por que não acredita no mecanismo maravilhoso e complexo da vida. Eu quero desaguar aonde haja um azul absoluto e tantos peixes translúcidos que me apressem o coração, como quem vê maravilhas e não acredita, como quem parecesse estar dentro de uma pintura com cores mais fortes que qualquer por de sol gentil. Eu quero o surrealismo dessas horas e o expressionismo das outras.
O concretismo das formas dizendo o que cada coisa é, e a física quântica dizendo: é tudo energia. Quero o abstracionismo diluindo as formas brutas e decididas.Quero que um traço me atravesse como um homem com pressa atravessando a rua e um traço fino e ondulatório penetrando por minha alma, desenhando com calma um lírio.Uma colcha me cobrindo as ancas, grossa, estúpida me enterrando debaixo dela, um lençol fino de bordados coloridos, como segunda pele minha, apenas tocando-me de leve e apenas cobrindo-me mentirosamente.
Quero olhar para o topo da montanha, e a preguiça de não chegar nela, quero o raso cume de um morro, para ver no fundo todo o horizonte em linha curva. Desenhar o vôo dos pássaros captando-lhe só as linhas do movimento e sorrir quando um pombo ousado batizar-me com dejetos quentes de seu corpinho assustado, na gola de meu vestido.
Quero o iluminismo de horas assim, o sorvete derretendo na boca, o papel para eu fazer origami.A libélula sobrevoando meu espaço, transparente e colorida como um vitral que se move.Olhar da janela a onda da vida passando, me levando e me trazendo. Pedindo a Deus toda essa fluidez, toda essa coisa que eu não tenho o nome.Pedir para que o dia anoiteça barroco no meu colo, e eu no colo dele.Descobrir nada e sentir tudo, ficar mudo, no momento de falar.Agradecer...não saber e mesmo assim querer.
Anaís
Enviado por Anaís em 02/09/2006
Reeditado em 02/09/2006
Código do texto: T230856
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Sobre a autora
Anaís
Vila Velha - Espírito Santo - Brasil, 43 anos
55 textos (1647 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 16:24)
Anaís