Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A FERA NA AMPULHETA

Um gosto meio acre,
algo meio inusitado,
insuspeito, não pensado,
minha língua tinta,
um tom meio ocre,
uma cor quase escarlate,
não sei...
Correr, sair desvairada,
ir embora, pensei...
Deixar tudo, jogar fora.
Só poderia se soubesse
que isso que me ensandece
me levaria, se coubesse,
a um lugar outro,
onde eu soubesse
que eu lá estava, 
a esperar por mim mesma.
Há uma presa em mim,
tenta fugir, sair da toca,
enrosca-se em cipós
de uma floresta de lembranças,
sobras de sonhos em nós,
nostalgias de andanças
e agora, estátua de mármore,
palavras perdidas, 
garras, lanças,
rasgando-me a pele a carne.
As pernas não querem ir,
a ameaça cada dia mais perto.
Minha alma é um abutre
e o pássaro que vive aqui dentro
de carcaça não se nutre:
quer voar sobre os restos,
alcançar outros ares,
escapar a sombras, desertos.
A mulher que vive em mim
ainda não sabe bem
o rumo que vai tomar,
o que ainda há por fazer.
A fera na ampulheta
desce os grãos de areia,
com uma alegria suspeita.
Espera o momento,
quieta, parada à margem, 
à espreita...
Para quando,
 num bote imprevisível,
há de engolir-me a coragem.
Ela está errada.
Ainda restam-me as asas.
Ergo-as, não sem esforço,
bato-as pra bem longe,
mesmo sem saber
como é que se põe de pé.
Não sei onde me encontrar.
Mas, aqui,
com certeza,
não é.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 05/09/2006
Reeditado em 08/09/2006
Código do texto: T233175

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154037 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 14:38)
Débora Denadai

Site do Escritor